Renata Rodrigues | Escritora, poeta e colunista


 

A voz que observa o cotidiano, questiona o óbvio e fala sobre o que nos atravessa.


 

Toda sexta-feira, no Cada Minuto.

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Há pessoas que não percebem o próprio autoabandono de imediato. Ele raramente começa como uma decisão consciente. Começa quando dizer “sim” parece mais seguro do que contrariar alguém; quando o descanso é adiado porque há sempre uma urgência maior; quando necessidades pessoais são tratadas como exagero, enquanto as dos outros se tornam prioridade.

 

Por fora, isso pode até receber elogios: disponibilidade, generosidade, capacidade de acolher, dedicação. Por dentro, porém, pode haver exaustão, culpa e uma sensação difícil de nomear — a de estar vivendo distante de si mesma.

 

Autoabandono não é um diagnóstico clínico. É uma expressão que ajuda a descrever esse movimento de se colocar, repetidamente, no último lugar. Ele aparece em relações afetivas, no trabalho, na maternidade, nas amizades e até nas escolhas mais simples do cotidiano. A pessoa se acostuma a perceber o desconforto alheio antes do próprio. Aprende a silenciar a fome, o cansaço, a tristeza e os limites para manter vínculos, evitar conflitos ou corresponder a expectativas.

 

Na Terapia do Esquema, abordagem utilizada pela psicóloga Camila Reis, esse tipo de padrão pode ser compreendido a partir de esquemas emocionais construídos ao longo da vida. Dois deles ajudam a iluminar a questão: a subjugação, quando a pessoa reprime desejos e opiniões por medo da reação do outro; e o autossacrifício, marcado pela priorização excessiva das necessidades alheias em detrimento das próprias.

 

Não se trata de falta de amor-próprio no sentido superficial da expressão, como se bastasse repetir frases positivas diante do espelho. Trata-se, muitas vezes, de uma estratégia de sobrevivência emocional. Quem aprendeu cedo que precisava ser “fácil”, útil ou silenciosa para ser aceita pode levar esse roteiro para a vida adulta sem perceber que continua tentando conquistar, em toda relação, uma segurança que faltou antes.

 

Um estudo publicado em 2024 na Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, conduzido por pesquisadores ligados à Universidade do Estado de Minas Gerais, identificou o autossacrifício entre os esquemas mais elevados em estudantes universitários avaliados. Na Terapia do Esquema, esse padrão descreve o compromisso excessivo com as necessidades dos outros, muitas vezes acompanhado de culpa ou da sensação de ser egoísta ao cuidar de si.

 

O dado não transforma generosidade em problema. Cuidar de quem se ama é uma das experiências mais humanas que existem. A questão é outra: o que acontece quando cuidar do outro exige que você desapareça?

 

Há uma diferença importante entre oferecer presença e oferecer a própria vida como pagamento para permanecer em um lugar. Uma relação saudável não pede que alguém diminua a voz, abandone projetos, tolere desrespeitos ou viva em estado permanente de dívida emocional. Amor não deveria depender do quanto alguém consegue se apagar.

 

É comum que o corpo perceba primeiro. A irritação sem explicação, a ansiedade, o esgotamento, a dificuldade de dormir ou a tristeza constante podem ser sinais de que há tempo demais não destinado a si. Não são provas de fraqueza. São convites para escutar o que foi silenciado.

 

O caminho de volta não costuma ser grandioso. Pode começar com um limite pequeno, um pedido de ajuda, uma consulta marcada, um “hoje eu não consigo”, uma vontade reconhecida sem culpa. Pode começar com terapia e com a pergunta que talvez tenha ficado esquecida por anos: o que eu preciso?

 

Cuidar de si não é abandonar ninguém. É parar de se abandonar.

 

•Texto produzido com contribuição da psicóloga Camila Reis, que atua com Terapia do Esquema