Coluna | Renata Rodrigues — a voz feminina que escreve sobre o que não costuma ser dito

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Renata Rodrigues é escritora, colunista e palestrante. Investiga os temas que atravessam o feminino na vida contemporânea.

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Agora com publicações semanais, TODAS AS QUARTAS no portal @portalcadamin a coluna assinada por Renata Rodrigues propõe uma leitura crítica do feminino na vida contemporânea.

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Nunca foi tão fácil conhecer alguém. Nunca foi tão difícil construir algo com alguém.Vivemos na era dos encontros rápidos, das conversas intensas que começam à noite e esfriam pela manhã, dos “vamos ver no que dá” que raramente dão em algo. O namoro — que antes representava a transição natural entre interesse e compromisso — hoje ocupa um território instável: desejado no discurso, evitado na prática.

O que mudou não foi apenas a forma de conhecer pessoas. Foi a forma de sustentar vínculos.

Entre a liberdade e a indefinição

A linguagem afetiva contemporânea revela essa transição. Multiplicaram-se as zonas intermediárias: “estamos ficando”, “não gosto de rótulos”, “deixa fluir”. Em tese, trata-se de liberdade — e há, de fato, um ganho importante na autonomia das escolhas. Ninguém é mais socialmente obrigado a seguir roteiros rígidos.
 

No entanto, observa-se algo além da liberdade: uma hesitação coletiva em nomear vínculos.

Assumir um namoro, para muitos, deixou de ser um passo natural e passou a representar risco simbólico. Nomear é assumir. E assumir implica responsabilidade emocional.
 

Surge então o que se pode chamar de cultura da saída aberta: relações mantidas em estado de teste permanente, onde tudo pode ser interrompido sem maiores explicações.

 

O ghosting e a normalização do desaparecimento

Nesse contexto, o ghosting tornou-se quase um comportamento estrutural da dinâmica afetiva atual. Não se trata apenas de deixar de responder mensagens, mas de desaparecer sem diálogo ou encerramento.
 

Se antes o término exigia conversa, hoje muitas vezes basta o silêncio.
 

O problema não é apenas ético — é psicológico. A ausência de explicação produz insegurança, autocrítica e sensação de descarte. Quem desaparece evita desconforto imediato; quem é deixado precisa lidar com a ambiguidade.
 

O ghosting revela algo mais profundo do que falta de educação emocional: ele expõe a dificuldade contemporânea de sustentar decisões difíceis.
 

Encerrar exige maturidade.Desaparecer exige apenas omissão.
 Quando o sumiço se torna normalizado, a construção se fragiliza.

O excesso de opções e a dificuldade de escolher

Paralelamente, a tecnologia ampliou exponencialmente as possibilidades de encontro. Aplicativos oferecem um catálogo praticamente infinito de potenciais parceiros. A sensação de que “sempre pode surgir alguém melhor” interfere diretamente na disposição de investir.

O livro Modern Romance, de Aziz Ansari em parceria com o sociólogo Eric Klinenberg, analisa esse fenômeno e descreve o chamado paradoxo das opções infinitas: quanto maior o número de alternativas disponíveis, mais difícil pode se tornar comprometer-se com uma única escolha.

A psicologia social observa mecanismo semelhante sob o conceito de choice overload (sobrecarga de escolha). Em contextos de excesso de alternativas, aumenta a indecisão e diminui a satisfação com a decisão tomada.

Em outras palavras: abundância pode paralisar.

Escolher exige renúncia simbólica.

E renunciar, na cultura da maximização de possibilidades, parece perda.

 

Proteção ou empobrecimento emocional?

Não se trata de condenar a modernidade. Houve avanços importantes: maior autonomia, menos imposições sociais e mais liberdade individual.

Mas junto com a liberdade cresceu também o medo da vulnerabilidade.

Namorar implica decisão.

Decidir implica risco.

Talvez a crise do namoro não seja ausência de desejo por conexão, mas excesso de proteção contra frustrações possíveis.

Enquanto alguns mantêm relações provisórias para preservar saídas, outros se retiram do cenário afetivo por exaustão. Porque viver indefinições constantes cansa. Ser “quase algo” cansa. Investir emocionalmente sem clareza cansa.

A leveza prometida muitas vezes se transforma em insegurança silenciosa.
 

Construir como ato contemporâneo de coragem
 

Em um tempo marcado pela possibilidade constante de substituição, escolher alguém deixou de ser trivial.

Namorar, paradoxalmente, tornou-se um gesto quase contracultural.

Significa afirmar:

Eu escolho.

Eu assumo.

Eu construo.

Talvez a pergunta não seja se ninguém mais quer namorar.

Talvez seja quem ainda está disposto a sustentar escolhas em um mundo que valoriza portas sempre abertas.

Porque vínculos reais nunca foram garantias absolutas.

Sempre foram decisões assumidas.

Em tempos de relações descartáveis,

construir é um ato de coragem.
 

E talvez a verdadeira modernidade

não esteja em evitar vínculos,

mas em sustentar escolhas.

 

Lucidez Afetiva

Porque sentir é natural.

Mas construir é decisão.

 

— Renata Rodrigues