Coluna | Renata Rodrigues — a voz feminina que escreve sobre o que não costuma ser dito
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Renata Rodrigues é escritora, colunista e palestrante. Investiga os temas que atravessam o feminino na vida contemporânea.
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Agora com publicações semanais, TODAS AS QUARTAS no portal @portalcadamin a coluna assinada por Renata Rodrigues propõe uma leitura crítica do feminino na vida contemporânea.
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Antes de falar sobre amor, sexo e apego, é importante entender como o cérebro funciona. Dentro da nossa cabeça existem bilhões de células que precisam conversar entre si o tempo todo. Para isso, elas usam pequenos mensageiros chamados neurotransmissores. Eles são como recadinhos químicos que dizem ao cérebro o que estamos sentindo.
A dopamina é o recado do prazer e da empolgação — ela faz a gente querer repetir o que foi bom.
A ocitocina é o recado do carinho e do vínculo — ela nos faz sentir próximos e seguros com alguém.
Já a vasopressina ajuda a criar laços mais firmes, ligados a cuidado, proteção e compromisso.
Esses recadinhos não decidem tudo sozinhos, mas influenciam bastante a forma como sentimos e nos conectamos com as pessoas.
Estudos em neurociência social demonstram que a experiência sexual ativa justamente esses sistemas neuroquímicos ligados ao prazer, à recompensa e ao apego. Em outras palavras, aqueles recadinhos químicos — os neurotransmissores .
O neurocientista Larry J. Young, da Emory University, referência mundial no estudo dos vínculos humanos, explica que a ocitocina — frequentemente chamada de hormônio do vínculo — é liberada em grandes quantidades durante o contato íntimo, especialmente no orgasmo, proporcionando sensação de conexão .Mas aqui, o ponto central é que esses neurotransmissores podem atuar de forma diferente em homens e mulheres.
Você já se perguntou por que muitas mulheres se apegam rapidamente, mesmo em um sexo casual, enquanto muitos homens geralmente desenvolvem vínculo emocional fora da cama ? Vamos entender a biologia que pode estar influenciando esse movimento juntos.
Revisões científicas publicadas em periódicos como Frontiers in Behavioral Neuroscience e Biology — revistas acadêmicas internacionais que reúnem pesquisas revisadas por especialistas do mundo inteiro — sugerem que, em média, mulheres apresentam respostas mais intensas de ocitocina associadas à experiência sexual. Isso pode favorecer sentimentos de apego emocional após a intimidade.
Em muitos homens, por outro lado, o sexo casual tende a ativar com mais força os circuitos dopaminérgicos, ligados à recompensa imediata, ao prazer e à novidade — sem necessariamente gerar o mesmo impulso automático de vínculo afetivo.
De forma simples:
• Mulher + ocitocina → maior chance de apego emocional
• Homem + dopamina → maior foco na recompensa imediata
Isso não é uma regra fixa, nem um determinismo biológico. São tendências observadas, moduladas por cultura, maturidade emocional, história pessoal e experiências anteriores. Ainda assim, esses dados ajudam a compreender por que tantas mulheres relatam maior envolvimento emocional após relações sexuais ocasionais — enquanto muitos homens não descrevem o mesmo impacto subjetivo.
Quando duas pessoas se abraçam, beijam ou fazem sexo, o cérebro começa a enviar pequenos recadinhos químicos que dizem como devemos nos sentir. Esses recadinhos não chegam da mesma forma em todos os corpos. O organismo feminino, ao longo da evolução, foi preparado para criar vínculos com mais rapidez, porque a ocitocina tem funções essenciais no parto, na amamentação e na ligação entre mãe e bebê. Por isso, quando há intimidade, o cérebro da mulher costuma interpretar o encontro como algo que pode virar laço, liberando mais ocitocina — mesmo quando ela acredita estar vivendo apenas algo casual.
Após o sexo, a ocitocina cria no cérebro feminino expectativa de vínculo.
Quando não há retorno, o cérebro interpreta o silêncio como perda.
O cortisol, hormônio do estresse, é liberado para lidar com essa ameaça emocional.
Isso provoca queda do bem-estar, ansiedade e sensação de vazio.
Não é carência: é resposta biológica à quebra de conexão. O corpo reage antes da razão.
No cérebro masculino, o mesmo encontro tende a estimular mais fortemente os sistemas da dopamina e da testosterona, ligados ao prazer, à recompensa e ao impulso. É como se o cérebro masculino dissesse: “Isso foi prazeroso”. E o cérebro feminino acrescentasse: “Isso foi prazeroso e significativo”.
Os próprios cientistas alertam: isso não é destino, nem sentença biológica. São tendências médias, influenciadas por cultura, história pessoal e escolhas conscientes, como apontam pesquisas de Bos et al. (PNAS), Carter (Neuroscience & Biobehavioral Reviews) e Young & Wang (Nature Neuroscience). Ainda assim, ignorar essas diferenças cobra um preço — especialmente das mulheres. Talvez o debate sobre sexo casual e apego não seja sobre moral ou repressão, mas sobre entender o próprio cérebro antes de entregar o corpo.
Esse é apenas o primeiro capítulo. Te espero próxima semana.










