Coluna | Renata Rodrigues — a voz feminina que escreve sobre o que não costuma ser dito

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Renata Rodrigues é escritora, colunista e palestrante. Investiga os temas que atravessam o feminino na vida contemporânea.
 

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Com publicações semanais, todas as quartas-feiras, no portal @portalcadamin, a coluna assinada por Renata Rodrigues propõe uma leitura crítica e sensível do feminino na vida contemporânea.
 


 

Há um movimento contemporâneo e silencioso entre mulheres heterossexuais. Ele não aparece com clareza nas estatísticas oficiais, mas cresce nas conversas privadas, nos consultórios terapêuticos e nas redes sociais. Não levanta bandeiras — mas provoca perguntas incômodas sobre desejo, exaustão e lucidez afetiva feminina.
 

Chamam de heterocelibato feminino voluntário.

 

O termo pode soar estranho à primeira leitura, mas a decisão é concreta: mulheres que, de forma consciente, optam por não se envolver afetiva ou sexualmente com homens por um período indeterminado. Não por repressão moral ou religiosa, nem por ausência de desejo — mas por lucidez diante de um cenário relacional percebido como emocionalmente desgastante.
 

Segundo estudo publicado no Women’s Studies International Forum, a abstinência sexual voluntária feminina não pode ser compreendida como simples recusa ou desinteresse, mas como uma resposta relacional às dinâmicas contemporâneas de gênero, nas quais o custo emocional se mostra desigual.
 

Durante décadas, mulheres foram socializadas e ensinada a se adaptar, ajustar expectativas, reorganizar próprias necessidades, interpretar silêncios, sustentar diálogos e preservar vínculos enquanto carregavam, muitas vezes sozinhas, o trabalho emocional nas relações heterossexuais. Amar, para muitas, tornou-se sinônimo de esforço contínuo.

 

Pesquisadores da sociologia afetiva e da psicologia relacional apontam que esse modelo de socialização contribuiu para a naturalização de vínculos assimétricos, nos quais o cuidado, a escuta e a manutenção emocional recaem de forma desproporcional sobre as mulheres. Nesse contexto, o heterocelibato surge não como negação do amor, mas como tentativa de resgatar dignidade relacional.


 

Há poucas décadas, quando a norma social era a castidade antes do casamento — ou ao menos a ausência de sexo casual — a mulher dispunha de algo que hoje se tornou raro: tempo. Tempo para conhecer, observar e construir intimidade emocional antes da intimidade física.

 

Esse intervalo funcionava, inclusive, como uma proteção psíquica. Se o vínculo não evoluísse ou se encerrasse precocemente, havia menor exposição a processos intensos de apego e idealização afetiva.


 

Hoje, o cenário é outro. Após a revolução sexual, dizer “não” ao sexo casual nas fases iniciais do encontro deixou de ser simples. Socialmente, espera-se disponibilidade total e fácil. A recusa, muitas vezes, exige explicações longas, justificativas desconfortáveis ou rótulos indesejados.
 

A mulher contemporânea, ainda que emocionalmente consciente, encontra-se pressionada a corresponder a uma lógica que nem sempre dialoga como seu corpo e seu afeto respondem à intimidade.
 

Esse descompasso entre cultura e neurobiologia ajuda a explicar por que tantas mulheres passaram a questionar o custo emocional do sexo sem vínculo — e por que algumas escolhem, deliberadamente, pausar essa dinâmica.


 

Talvez a decisão pelo celibato voluntário não esteja ligada à ausência de libido ou desejo. Trata-se, em muitos casos, de mulheres conscientes dos próprios limites, do mínimo que aceitam e da qualidade de vínculo que desejam construir.
 

Não é recusa ao desejo. É recusa ao desgaste.
 

É importante reafirmar: esse fenômeno não diz respeito à castidade imposta, nem à rejeição do sexo, religião , moral ou grau de feminilidade. Trata-se de escolher quando, com quem e em quais condições o desejo se manifesta, sem negociar o mínimo de respeito e reciprocidade.


 

Muitas mulheres que adotam o celibato voluntário afirmam que o desejo permanece. O que cessou foi a disposição para concessões que custam caro ao próprio corpo e à própria saúde emocional.

Não é abstinência no sentido clássico.

É lucidez afetiva.


 

Em Nação Dopamina, Anna Lembke propõe uma reflexão provocativa: quando o prazer se torna excessivamente fácil, rápido e abundante, ele pode, paradoxalmente, produzir menos satisfação e mais inquietação interna. Não pela natureza do prazer, mas pelo impacto cumulativo da hiperestimulação sobre o cérebro humano.


 

Talvez, em meio a uma cultura de liberdade sexual e gratificação imediata, a pergunta mais relevante não seja “por que pausar?”, mas:


 

Que tipo de experiência vale a pena para o corpo, para a mente e para o sistema emocional?


 

Será que não estamos, muitas vezes, trocando profundidade por intensidade breve? Vínculo por estímulo? Conexão por descarga neuroquímica?

Fica a reflexão.


 


 

Te espero na próxima quarta-feira, na série Lucidez Afetiva.


 


 

Nota


 

As diferenças citadas referem-se a tendências médias observadas em estudos científicos e não devem ser interpretadas como regras absolutas ou determinismos biológicos.


 


 

Referências


 

¹ Cuthbert, K. et al. Neither “incel” nor “volcel”: Relational accounts of women’s sexual abstinence.Women’s Studies International Forum, Elsevier, 2023.


 

² Hochschild, A. R. The Managed Heart: Commercialization of Human Feeling. University of California Press, 1983.


 

³ Young, L. J.; Wang, Z. The neurobiology of pair bonding. Nature Neuroscience, 2004.


 

⁴ Carter, C. S. Oxytocin and sexual behavior. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, 1992.


 

⁵ Walum, H.; Young, L. J. The neural mechanisms and circuitry of the pair bond. Nature Reviews Neuroscience, 2018.


 

⁶ Fisher, H. Why We Love: The Nature and Chemistry of Romantic Love. Henry Holt, 2004.


 

⁷ Garcia, J. R. et al. Sexual hookup culture: A review. Review of General Psychology, APA, 2012.