Renata Rodrigues | Escritora, poeta e colunista

A voz que observa o cotidiano, questiona o óbvio e fala sobre o que nos atravessa.

Toda sexta-feira, no Cada Minuto.

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    Nós não conseguimos parar? Você entra no elevador. São vinte segundos. Pega o celular. Espera o café ficar pronto. Pega o celular novamente.  Chega alguns minutos antes de um compromisso. Pega o celular. São intervalos pequenos demais para começarmos qualquer atividade importante, mas aparentemente longos demais para simplesmente não fazermos nada.

    Em algum momento, transformamos quase todo espaço vazio em espaço disponível para consumo. Mensagens, vídeos, notícias, músicas e redes sociais nos oferecem algo que nenhuma outra geração experimentou com tamanha facilidade: praticamente nunca precisamos ficar sem estímulo. Basta um movimento do dedo. Talvez, então, a pergunta não seja se estamos ficando mais entediados. Talvez estejamos ficando menos capazes de permanecer no tédio.

    O tédio tem uma reputação ruim. Parar virou sinônimo de incompetência. Nós o associamos à perda de tempo e à improdutividade. Quando tédio aparece, nossa reação quase automática é procurar alguma coisa que o faça desaparecer.

    Em 2023, uma revisão sistemática e meta-análise publicada na revista científica Computers in Human Behavior Reports reuniu 59 estudos sobre tédio e uso de mídias digitais e encontrou associação entre os dois, mais forte nos casos de uso problemático. Os autores alertam, porém, que os dados não permitem afirmar que o celular causa tédio ou o contrário. Ainda assim, há uma mudança cotidiana difícil de ignorar: nunca tivemos tantas ferramentas para escapar tão rapidamente de um momento de tédio. E talvez estejamos esquecendo o que existia nesses intervalos antes de preenchê-los. 
     Existia espera. Observação. Pensamento. Existia até aquela atividade aparentemente inútil de deixar a mente vagar. Na Psicologia, essa experiência é estudada como mind wandering, ou divagação mental: momentos em que nossa atenção se desprende do que está acontecendo e percorre pensamentos, lembranças, possibilidades e ideias. 
     Nem sempre isso é positivo. Quando precisamos estar concentrados, a divagação pode atrapalhar. Mas pesquisas também sugerem que, em determinadas circunstâncias, ela pode participar de processos relacionados à criatividade, à resolução de problemas e ao planejamento.  Uma mente aparentemente sem fazer nada não está necessariamente parada.  
   Talvez isso ajude a explicar por que algumas ideias aparecem no banho, durante uma caminhada ou enquanto olhamos pela janela. São momentos em que deixamos de oferecer à nossa atenção uma tarefa atrás da outra.

   Não se trata de demonizar a tecnologia. O celular nos conecta, informa, diverte e facilita a vida. A pergunta é outra: quando foi que passamos a sentir necessidade de preencher todos os espaços? Talvez exista uma diferença importante entre descansar a atenção e simplesmente trocar de estímulo.

     Depois de horas trabalhando, assistir a vídeos pode parecer descanso porque deixamos a tarefa anterior. Mas continuamos recebendo imagens, sons, informações e novidades. Mudamos de atividade. Não necessariamente encontramos silêncio.

   Vivemos em uma cultura na qual quase tudo precisa ter alguma utilidade. Precisamos produzir, aprender, melhorar, otimizar. Até o descanso parece precisar servir para alguma coisa. Por isso, seria curioso transformar agora o próprio tédio em uma técnica de produtividade: “fique entediado para ser mais criativo”. Talvez alguns minutos possam simplesmente não servir para nada. E tudo bem !  
    Esperar sem pegar o celular. Olhar pela janela. Caminhar sem ouvir alguma coisa. Permitir que um silêncio continue sendo silêncio. Qual foi a última vez que você fez uma corrida sem fone no ouvido ?       
 
     Não precisamos abandonar a tecnologia nem voltar nostalgicamente a um mundo que já não existe. Talvez precisemos apenas recuperar alguns pequenos espaços em que nada acontece.  Estamos tão ocupados evitando que a mente fique vazia que ainda não sabemos o que ela faria se, de vez em quando, simplesmente a deixássemos em paz.