
Um dia desses, tentei lembrar o nome de um objeto.
O nome me escapava.
Era… colher.
Fiquei alguns segundos olhando para o talher, esperando que o Wi-Fi do meu cérebro conectasse. E foi inevitável pensar: será que meu cérebro está ficando podre?
A expressão parece exagerada, mas existe: brain rot, ou “cérebro podre”. Não é um diagnóstico médico nem significa que o cérebro esteja literalmente apodrecendo. É uma expressão usada para descrever a percepção de deterioração mental ou intelectual associada, principalmente, ao consumo excessivo de conteúdos considerados triviais ou pouco desafiadores.
E, embora pareça ter nascido junto com TikTok, Reels e vídeos de quinze segundos, o termo é bem mais velho que a internet.
O primeiro registro conhecido aparece em 1854, no livro Walden, de Henry David Thoreau. Na época, ele criticava a tendência da sociedade de abandonar ideias complexas em favor das mais simples. Cento e setenta anos depois, brain rot foi escolhida pela Oxford como a Palavra do Ano de 2024. O uso da expressão havia aumentado 230% em apenas um ano.
Thoreau não conheceu o algoritmo.
Mas talvez reconhecesse o problema.
Nunca tivemos acesso a tanta informação. E talvez nunca tenhamos consumido tanta coisa sem realmente nos aprofundarmos em quase nada.
Rolamos.
Assistimos.
Curtimos.
Pulamos.
Esquecemos.
Um vídeo termina e outro começa antes mesmo de decidirmos se queríamos assistir ao próximo.
E isso começa a interessar também à ciência. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2025 no Psychological Bulletin reuniu 71 estudos, com 98.299 participantes, e encontrou associação entre maior consumo de vídeos curtos e pior desempenho cognitivo. As relações mais fortes apareceram justamente em atenção e controle inibitório — a capacidade de resistir a impulsos e manter o comportamento direcionado a um objetivo. Isso não significa que assistir a Reels “apodrece o cérebro”, nem prova sozinho uma relação de causa e efeito. Mas é um sinal importante sobre a forma como estamos consumindo conteúdo.
Talvez o problema não seja apenas o tempo de tela.
É o treinamento para a superficialidade.
Estamos formando mentes capazes de devorar toneladas de conteúdo, mas cada vez menos dispostas a mergulhar fundo em alguma coisa.
Um livro parece longo.
Um filme parece lento.
Uma conversa demora demais.
Uma pessoa começa a contar uma história e, antes de ela terminar, nossa mão já procura o celular.
Na última coluna, escrevi sobre nossa dificuldade crescente de simplesmente ficar entediados. Talvez este seja o capítulo seguinte da mesma história: não estamos apenas eliminando o tédio. Estamos preenchendo cada intervalo com estímulos cada vez mais rápidos.
E, se isso merece atenção entre adultos, entre crianças a discussão se torna ainda mais importante.
Uma meta-análise publicada no JAMA Pediatrics, reunindo 42 estudos e 18.905 crianças, encontrou associação entre maior quantidade de exposição às telas e habilidades de linguagem mais baixas. Mas há um detalhe importante: conteúdo educativo e uso acompanhado por adultos apresentaram associações positivas. Ou seja, a ciência não sustenta a ideia simplista de que “toda tela faz mal”. Quantidade, qualidade e contexto importam.
Talvez seja exatamente aí que esteja a pergunta que deveríamos fazer: o que estamos colocando dentro da nossa atenção?
Porque atenção também é matéria-prima das relações humanas.
Para ouvir alguém é preciso permanecer.
Para conhecer alguém é preciso tempo.
Para aprender é preciso suportar não entender imediatamente.
Para amar alguém de verdade é preciso descobrir uma pessoa que não cabe em quinze segundos.
A psicóloga clínica alagoana Samira Lima (CRP 15/5768) chama atenção para esse encontro entre excesso de estímulos e relações cada vez mais superficiais. Segundo ela, não se trata apenas de perder a capacidade de concentração. Quando nos acostumamos a estímulos rápidos e recompensas imediatas, relações reais — lentas, imperfeitas e exigentes — podem parecer trabalhosas demais.
Talvez seja por isso que a discussão sobre brain rot vá muito além de esquecer onde colocamos as chaves ou ficar vinte segundos tentando lembrar a palavra “colher”.
A pergunta mais desconfortável é outra:
o que acontece quando começamos a exigir da vida real a velocidade do digital?
Pessoas não carregam em dois segundos.
Conversas importantes não têm botão de avançar.
Relacionamentos não oferecem a próxima opção com um movimento do dedo.
Livros não entregam todas as respostas no primeiro parágrafo.
E a vida, definitivamente, não foi projetada para rolar para cima quando começa a ficar entediante.
Não pretendo demonizar a internet. Trabalho nela, aprendo nela, escrevo nela. O digital ampliou acesso à informação, aproximou pessoas e abriu possibilidades extraordinárias.
O problema começa quando uma ferramenta deixa de ocupar parte da vida e passa a disputar a nossa capacidade de vivê-la.
Talvez não precisemos de uma grande “desintoxicação digital”. Podemos começar recuperando pequenos territórios: terminar um filme sem pegar o celular, ler algumas páginas sem alternar de aplicativo, caminhar sem fones de vez em quando, conversar olhando para quem está à nossa frente.
Ficar entediado.
Dançar.
Ler.
Ouvir.
Aprender alguma coisa difícil.
Fazer alguma coisa com as mãos.
Estar inteiro onde o corpo já está.
Porque talvez a questão não seja descobrir se nosso cérebro já está “podre”.
Talvez seja perceber, enquanto ainda há tempo, para onde estamos ensinando nossa atenção a ir.
E escolher, de vez em quando, não deslizar para o próximo vídeo.
