O Estado é laico – graças a Deus! Uma das coisas mais intragáveis na política é a exploração da fé religiosa. Essas duas dimensões não deveriam se misturar jamais. Não há como dar certo. O templo não pode servir de palanque para aventureiros correndo atrás de voto. Mas, como já escrevi aqui, essa é uma guerra perdida. Nem por isso devemos silenciar sobre as presepadas que tal combinação produz a três por quatro.
Sim, vou passar, de novo, pela controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida. Mas a motivação inicial do texto é um vídeo de João Henrique Caldas, candidato a governador. Numa troca de farpas com Renan Filho, seu adversário na eleição, JHC fala como se fosse um pastor em defesa de sua igreja. E o assunto nada tem a ver com religião.
O ex-prefeito de Maceió gravou o vídeo após o TRE tirar do ar nove emissoras de rádio que, resumindo, estariam fazendo propagada ilegal de sua candidatura. Além das rádios, o tribunal também mandou bloquear dez perfis em redes sociais pela mesma razão. A decisão da Justiça atende a uma ação movida pela campanha do candidato Renan Filho.
Na gravação de ataque ao rival, JHC ignora o mérito da causa e exibe um proselitismo de feições religiosas. Segundo ele, Renan agiu contra uma “rádio evangélica” – não faz menção às nove emissoras. Acusa o ex-ministro de ação “contra o povo de Deus”. E segue numa ladainha inteiramente desconectada dos fatos reais.
Fala JHC no seu vídeo: “Sinceramente, eu queria saber o que Renanzinho Calheiros tem contra o povo evangélico e o povo de Deus”. São dois minutos girando em torno dessa mesma ideia, que, repito, nada tem a ver com a questão sobre a qual o TRE decidiu. A ironia é que, em outro trecho, JHC diz que “a velha política não pode entrar na igreja”.
Em julho passado, já em ritmo de campanha, o ecumênico JHC foi a Juazeiro do Ceará em romaria para celebrar Padre Cícero (foto). Em suas palavras, foi “renovar a fé pelo povo de Alagoas”. A julgar por suas manifestações, o candidato é meio evangélico, meio católico. Seria isso? Não sei. Especulo. Tudo muito esquisito, fora de lógica.
Ou melhor: pode-se imaginar que estamos diante da lógica eleitoral – isto sim faz sentido. Bem, cada um com suas escolhas, inclusive no campo da fé e das religiões. A lamentar que o sagrado seja emporcalhado pelas profanas demandas de uma eleição. Está aí Nossa Senhora arrastada para o meio da guerra pela Presidência da República.
Atrás de voto, daqui a pouco tem candidato em defesa do povo do capeta.
