Ninguém aguenta um vídeo com duração acima de dois minutos. Ninguém dedica mais que dois minutos na leitura de um texto. Em algum momento, alguma autoridade em comunicação decretou essas verdades absolutas – e todo mundo saiu repetindo a mesma ideia. Naturalmente, a consagração desses artigos de uma nova “Constituição” tem tudo a ver com o triunfo das redes sociais. Não há tempo a perder.

Soterrados pelos novos paradigmas da vida digital, temos de seguir as regras atuais impostas pelos senhores do Metaverso. Tudo tem de ser curto, rápido e direto. Ou é assim ou ninguém liga para nada. Por isso, as longas entrevistas acabam tendo audiência nos “cortes” – os trechos mais quentes do palavrório. Todos estão nessa. 

Por isso também o padrão tiktoker se impôs em todos os ambientes – do futebol à política, do carnaval à academia, da gandaia aos conventos. Tudo começou, que eu lembre, com a crítica aos “textões” no Facebook. Não por acaso, o Twitter veio ao mundo com o modelo de 140 caracteres por texto. Mais do que isso, claro, o leitor não tolera.

A supremacia desse entendimento é uma tragédia. Se aceitarmos que é isso mesmo e não tem volta, estamos perdidos. A forma como nos comunicamos delimita, também, uma visão de mundo, um jeito de estar entre os outros, a capacidade de entendermos as coisas. Sob a tirania da regra única, a pluralidade será fulminada.

Vez em quando, um episódio inesperado põe em xeque essa interpretação consagrada sobre os novos tempos. É o que acontece agora com o vídeo Grandes Igrejas, Master Negócios, apresentado pelo ator e humorista Fábio Porchat. São 30 minutos para resumir o escândalo do banco Master. Meia hora de conversa que sacudiu o coreto.

Temos, no fim das contas, 30 minutos de texto. Sim, é um famoso na tela. Mas celebridades existem aos montes em todos os veículos. O vídeo com Porchat explodiu em audiência, de forma instantânea, pela qualidade do que se escreveu para ser lido pelo apresentador. É a excelência da escrita, não tenho dúvida, que garante a “viralização”.

A edição do material não tem nada de mirabolante, é convencional para os padrões do audiovisual. A força do material está na construção textual – com clareza, precisão e dose certa de ironia e humor. Na combinação certeira de frases, a barafunda do Master é exposta de modo até então inédito, embora todos os fatos sejam conhecidos.

Sim, tudo o que está no vídeo já havia sido publicado pela imprensa. Não há fatos novos. Então por que o barulho? Porque é a forma – a linguagem afinal – que determina o rumo das coisas. E a forma, nesse caso, é a palavra escrita. Por isso, milhões assistiram a essa “infinidade” com 30 minutos. O poder de um texto não deve – ainda – ser subestimado.