Pai de Messi morre aos 68 anos de idade. A notícia apareceu feito avalanche por toda a imprensa brasileira. O que isso importa para a vida de pessoas mundo afora? O fato de o jogador argentino ser uma celebridade planetária justifica os quilômetros de texto pelo noticiário? Não foi uma notinha qualquer, não. Nosso jornalismo se empenhou na construção de perfis sobre o cidadão morto. Textos longos, cheios de detalhes.

Não é que seja uma surpresa, diante das toneladas de informações sobre a vida pessoal de famosos publicadas diariamente. Depois que Vinícius Junior encontrou Virgínia Fonseca, abriu-se mais uma usina de “notícias” com produção imparável. O jogador fez “procedimentos” que mudaram suas feições – e isso balançou o país.

Nas manchetes sobre o casal sensação – há muitos outros nessa disputa –, as mães de cada um dos enamorados têm destaque. Anônimas, viram “celebridades”, também elas, surfando na onda dos filhos. Esse detalhe, salvo engano, é uma das novidades no “universo dos famosos”. Os parentes entram de quebra no combo noticioso.

Duas frentes de atenção parecem determinantes nesse tipo de cobertura: os tais procedimentos no corpo e o conteúdo das redes sociais. As duas dimensões naturalmente se juntam o tempo todo. Após a harmonização, ele ou ela vão no Instagram para o veredito das massas. O debate pode acabar em frustração e bate-boca.

O perturbador interesse pela rotina de subcelebridades – a maioria com evidentes limitações intelectuais e até cognitivas – alcança a quintessência quando a notícia envolve treta e aventuras sexuais. De preferência, aqui também, que as duas variáveis, digamos assim, andem sempre juntas e misturadas. É receita ideal pra explosão de likes.

Faz tempo que esse tipo de noticiário deixou o antigo departamento de fofocas e arrombou a cerca da velha imprensa. É como se todos tivessem entendido a perversa equação: ou se rende ou não sobrevive no mercado da notícia. É o que explica holofotes para bizarrices até sobre hábitos de higiene pessoal e lances grotescos da fisiologia.    

Num passeio pelas principais marcas da imprensa nos estados, do Zero Hora gaúcho ao Amazonas Atual, a bagaceira venceu. Não importa a linha editorial – se conservador ou modernoso, sensacionalista ou vetusto, dá no mesmo. Queremos saber de Ana Castela, Zé Felipe, Anitta, MC Mirella, Gustavo Lima, Shawn Mendes & Bruna Marquezine etc.

João Ramos do Nascimento morreu em 16 de novembro de 1996, aos 79 anos. A notícia saiu meio discretamente. E olhe que, naquela quadra, ele tinha um filho ministro do governo FHC. A morte de Seu Dondinho, pai de Pelé, o maior de todos os tempos, foi quase nada diante do labafero com o pai de Messi. O Metaverso mudou tudo.