Não é surpresa nenhuma, muito menos uma novidade. Uma reação clássica de toda figura pública fustigada por qualquer tipo de acusação é apontar para “perseguição”. Em primeiro lugar, o suspeito da ocasião tenta transformar tudo em uma “trama” armada por seus adversários na política. Aqui, Jaques Wagner e Flávio Bolsonaro vestem o mesmo figurino – o de vítima inocente e caluniada por inimigos inescrupulosos.
A estratégia é milenar, mas continua sendo um caminho que parece incontornável para todos os que se veem nas cordas. Mais do que em qualquer outro ambiente, dentro da lógica no universo da política, faz todo sentido. Reagir a uma denúncia jogando a culpa em rivais com “interesses espúrios” serve para – o clichê se impõe – “desviar o foco”.
Estão aí, entre muitos outros, os exemplos atualíssimos de Ciro Nogueira, Sóstenes Cavalcante, Weverton Rocha e Cláudio Castro, além dos já citados Jaques Wagner e Flávio Bolsonaro. O mais novo nessa lista é Alfredo Gaspar. Culpado ou inocente, ele já entregou seus “algozes”: são todos os que atuam contra seus ideais patrióticos.
O macete de apontar o outro como responsável por denúncias que expõem o agente político, não demora, acaba arrastando para um segundo culpado. A peça defensiva se completa ao denunciar o papel da “imprensa suja e comprada”. O alagoano vice de Flávio também é um mártir “atacado” por essa maldita imprensa brasileira.
Antes de seguir na política, ressalte-se que essa manjada linha de defesa é usada em outros universos. Artistas e celebridades em geral adoram atirar contra o jornalismo para justificar lambanças de todos os tipos. A acusação mais pesada é de suposta extorsão. A mais leve é a de prática de “sensacionalismo”. O Fofocalizando vive nessa guerra.
O tema é de uma vastidão infindável. Aliás, o que mais tem é jornalista acusando a própria imprensa de crimes a granel. Paulo Henrique Amorim criou o imortal PIG (Partido da Imprensa Golpista). Augusto Nunes vive indignado com a “imprensa desqualificada que persegue quem pensa diferente”. É assim desde a invenção de Gutenberg.
No Brasil dos últimos anos, ninguém representou tanto esse modelo de depredação da imprensa quanto Jair Bolsonaro. É uma verdadeira tara intelectual. Na Presidência, não havia uma manifestação pública que não acabasse em baixezas e imundícies contra o exercício do jornalismo livre. Tanto ódio acaba tendo efeito contrário.
Com o perdão pela platitude, a imprensa erra para todos os lados, hoje e sempre. Comete falhas até grotescas, também é verdade. Mas, na essência, segue produzindo saldo amplamente positivo, segue imprescindível para a boa e velha democracia.
Prova disso é que, para se defender do indefensável, até notórios criminosos e embusteiros têm a liberdade de esbravejar aquele mantra: “A culpa é da imprensa”.
