O deputado Alfredo Gaspar chega à condição de vice na candidatura de Flávio Bolsonaro devido a uma única credencial: ter proposto o indiciamento de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, na CPI do INSS. Relator da comissão, Gaspar usou esse palanque para fazer proselitismo eleitoreiro durante meses. Ignorou tudo o que apontava para a gestão de Jair Bolsonaro, seu ídolo, e distribuiu acusações para o atual governo.
A caçada a Lulinha na CPI foi o grande atributo do parlamentar alagoano ressaltado por Flávio no anúncio de seu companheiro de chapa. Assistir ao Zero Um desfraldar a bandeira de combate à corrupção e ao crime organizado é a piada pronta. A aposta é no discurso do prendo, arrebento e cancelo CPF como promessa de campanha.
É muito pouco. A escolha mostra que a aventura eleitoral do filho do Jair seguirá o velho padrão do bolsonarismo raiz: “Acabou, porra”! Se é para cumprir esse papel, o de xerifão, tudo bem, Gaspar é nome certo. Além disso, o deputado devota uma reverência a tal ponto que defende a santidade de toda a família Bolsonaro. Quase fanatismo.
A propósito, o relatório da CPI apresentado pelo relator foi rejeitado. Seus próprios colegas no colegiado ficaram um tanto constrangidos ao ter de defender a peça de ficção forjada em ritmo eleitoral. Meses de apuração não tiveram qualquer utilidade para o país.
Um vice investigado
A caçada ao eleitorado também terá de lidar com fragilidades mais graves no currículo do anunciado vice. A imprensa nacional já destaca os dois casos pelos quais Alfredo Gaspar é investigado. No âmbito do STF, ele responde por estupro de vulnerável. A vítima teria sido uma menina de 13 anos de idade. O acusado aponta “perseguição”.
No Tribunal de Contas da União, o político é mais um enrolado em suspeita de desvio de emendas parlamentares. Gaspar mandou 6 milhões de reais para a prefeitura de São José da Laje, chefiada por aliados seus. A dinheirama seria usada em “projetos sociais”, mas isso nem de longe aconteceu. O deputado joga a bomba na prefeitura.
São agruras que todos os candidatos, uns mais outros menos, enfrentam numa campanha. Como partiu para um voo nacional, a trajetória de Gaspar será escrutinada como nunca foi. Ele naturalmente sabe que nas democracias é assim que funciona. Deve estar preparado para explicar as acusações de hoje e eventuais estranhezas de amanhã.
No campo da política propriamente dito, o nome de Gaspar dividiu grupos aliados. Ou seja, não houve consenso na turma que segue o candidato. Como escrevi no texto anterior, o alagoano é visto como alguém que não agrega – ao contrário, reforça a beligerância que nem os parceiros do mercado aguentam mais. Caso sério.
