Em momentos graves da vida, no âmbito pessoal ou coletivo, nos quais uma escolha terá de ser feita, se declarar “neutro” é uma alternativa de respeito? O imaginário coletivo trata com certa antipatia o discurso do nem um nem outro. Diante do impasse, a melhor maneira para não se comprometer é optar pelo clássico nem contra nem a favor, muito pelo contrário. A depender do caso, tudo não passa de fraqueza de princípios.
Para ficarmos na geleia geral do que antigamente se chamava cultura de massa, Jô Soares materializou o tipo no personagem Múcio, lá nos remotos anos 80 do século passado. Tá no YouTube. Forçado a dar uma opinião clara, “sem rodeios”, sobre qualquer tolice, Múcio vai e vem, de um polo a outro, numa hilariante gangorra de “convicção”.
O tema desafia a política, às vezes mais para os lados da comédia – mas também, em certas ocasiões, revela indícios de covardia por parte de figuras públicas. Em 2011, ao lançar o PSD, cobrado a esclarecer qual seria a linha ideológica da nova sigla, Gilberto Kassab escreveu para a história: “Nem de direita, nem de esquerda, nem de centro”.
Nos tempos áureos do PSDB, sua postura de equilíbrio no mercado das ideologias resultou na fama de indecisão. “Em cima do muro” foi a expressão que colou durante anos sobre FHC e outras lideranças da legenda. Até a gramática do dia a dia foi afetada. O “tucanês” era o idioma pelo qual se expressavam ideias ensaboadas e malemolentes.
Outra forma de exibição do mesmo fenômeno apareceu com a ascensão do bolsonarismo. Sobretudo em 2018, a falsa equivalência entre Fernando Haddad e Jair Messias serviu de biombo para bolsonaristas no armário alegarem um neutralismo farsesco. Houve casos assim no país inteiro, inclusive de valentes aqui em Alagoas.
2026. Nunca se falou tanto em neutralidade como nas últimas semanas. É algo que influencia a eleição presidencial, afunilada entre Lula e Flávio Bolsonaro. Ao menos sete blocos partidários de peso, incluindo federações, optaram por essa posição: MDB, União Brasil, Progressistas, Republicanos, Podemos, PSDB e Cidadania.
Na eleição de 2022, todos esses partidos estavam com um candidato já no primeiro turno. Agora não. Não vale a pena. A liberdade de “não ter lado”, na largada, facilita as alianças pelos governos estaduais e pelas cadeiras na Câmara e Senado. Formar uma bancada numerosa é garantia de mais poder e de mais dinheiro do fundo partidário.
Além disso, num segundo turno, o apoio será ainda mais valioso para os oponentes. Isso significa barganhar uma participação ampla no eventual futuro governo. Como se vê, em todas as situações, “ficar neutro” é escolher a via com a melhor vantagem. Por aí.
