Se o Altíssimo tem de fato a mesma nacionalidade que nós, talvez não seja muito simpático à região alagoense. Ao que parece, Ele não se empenhou muito na produção, filmagens e divulgação da obra que remete a sua origem – e que foi integralmente tocada em Alagoas. Deus Ainda é Brasileiro, do alagoano Cacá Diegues, está empacado há quatro anos nas mãos de produtores que não conseguem finalizar o trabalho.
Gravado quase todo no litoral norte, pelas bandas de Ipioca e arredores, o filme também teve locações em outras áreas da capital e na região de Piranhas. As gravações foram encerradas no fim de 2022. A ideia do diretor era levar a história aos cinemas em 2023, vinte anos após o sucesso de Deus é Brasileiro. Aí a parada desandou.
A produção é de Paula Barreto, da dinastia que atravessa as realizações de nosso cinema desde Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos até os dias atuais. Luiz Carlos Barreto, o Barretão, pai da produtora, morreu em 22 de julho passado, aos 98 anos. Sua assinatura está em Vidas Secas e Terra em Transe, para citar dois monumentos brazucas.
Com orçamento anunciado de 12 milhões de reais, o filme contou com financiamento do governo de Alagoas. Até onde pesquisei, o valor liberado pelos cofres estaduais não foi divulgado. Na etapa derradeira da produção, a chamada “finalização”, o dinheiro acabou. A produtora revelou que eram necessários mais 700 mil reais para fechar a aventura.
A partir de 2023, começou uma sucessão de anúncios de lançamento, sempre para “os próximos meses”. Uma a uma as datas foram sendo descumpridas sem uma explicação precisa. Cacá Diegues morreu em fevereiro de 2025, aos 84 anos, sem concretizar o projeto de mostrar ao público a nova versão do filme de duas décadas atrás.
Setenta por cento do elenco do filme é formado por atrizes e atores alagoanos, assim como a equipe de produção. Uma multidão espera ansiosamente para ver o resultado na telona, mas até agora a frustração se renova a cada anúncio furado.
Causa espanto que algo envolvendo medalhões do nosso cinema, atrás e na frente das câmeras – Antônio Fagundes é Deus mais uma vez –, pareça refém do que soa como amadorismo. Em janeiro deste ano, Paula Barreto garantiu à Veja São Paulo que o filme estaria no Festival de Cannes, em maio. Nada. A promessa, agora, é para dezembro.
Enquanto Deus não dá as caras, voltou aos cinemas, remasterizada, outra obra de Cacá: Xica da Silva, nos 50 anos de lançamento. Zezé Motta estraçalha num desempenho hoje tão impactante quanto na época. O papel mudou o patamar da atriz. Além do êxito avassalador no Brasil, ela ganhou destaque mundo afora, colecionando prêmios.
Entre seus mais de 20 filmes, Diegues não chegou à obra-prima. Após a década de 70 do século passado, empilhou um equívoco atrás do outro – incluindo o popular Deus é Brasileiro, uma comediazinha tediosa, sem nada de original. Esperar que a sequência seja um esplendor, suspeito, é torcer por um milagre do nosso eterno Conterrâneo.
