Na tentativa de reduzir o isolamento no qual se encontra faz alguns meses, Flávio Bolsonaro investiu na hipótese de ter como vice na chapa a senadora Tereza Cristina. Liderança do agronegócio raiz, ex-ministra de Bolsonaro e filiada ao Progressistas, seria um nome para fortalecer o Zero Um em mais de um aspecto. Primeiro ampliaria a coligação do PL, com a máquina da federação partidária que reúne o União Brasil e o PP.
Além disso, o candidato do bolsonarismo e da extrema direita busca desesperadamente se entender com o eleitorado feminino. O que sempre foi um problema se tornou mais grave depois dos sucessivos ataques de Paulo Figueiredo. O parça de Flávio e Eduardo afirmou para o mundo que “mulher vota mal pra caralho”. Aí é difícil.
Flávio também se complicou após a briga pública com Michelle, a madrasta má. Segundo a ex-primeira-dama, ela foi humilhada e maltratada pelo senador. Os dois ensaiaram uma reconciliação fake. A presença de Tereza Cristina na chapa, portanto, seria usada para “estancar” essa fragilidade política junto à mulherada.
Fechando aliança com a federação União-Progressistas, a campanha também teria mais tempo de propaganda no rádio e na TV. Hoje, Lula estaria na frente, com mais exposição. O PL sabe o peso de uma estrutura como a desses dois partidos, PP e União. Com o engajamento de lideranças nacionais no palanque, o bloco fica mais sólido.
Mas a turma no topo dessas legendas quer isso? Por alguns motivos, a resposta foi negativa. E aqui entra a participação do deputado federal Arthur Lira, um dos comandantes do PP e da federação. Ele é parte de um grupo seleto que decide os rumos do partido presidido pelo senador Ciro nogueira. Consultado, disse não a Flávio.
Vejam o que explicou à imprensa o deputado Eduardo da Fonte, líder no Congresso e presidente do PP em Pernambuco: “Abriu-se uma consulta interna com oito integrantes do partido. A maioria foi pela neutralidade. Eu, além de Arthur Lira, Agnaldo Ribeiro e Doutor Luizinho, todos pela neutralidade”. Por que essa postura?
Porque Flávio é um candidato em viés de baixa. Porque estar neutro é ter liberdade para negociar com os dois lados – agora, num eventual segundo turno e no futuro governo, seja qual for o resultado das urnas. Como se vê, aqui a histeria ideológica é descartada em nome da racionalidade política. Se quiser, pode chamar de pragmatismo.
Com sinal trocado, é mais ou menos a situação do MDB, no âmbito nacional e em Alagoas. Renan Calheiros, pai, e Renan Filho apoiam Lula desde sempre, mas o partido fica na inefável categoria do neutralismo. Cada diretório estadual escolhe seu lado.
Duas notas a mais sobre Arthur Lira. No Congresso, ele mantém posição de destaque na República. A outra nota tem certa ironia. Foi dito na imprensa, mais de uma vez, que o deputado é o preferido de Jair Bolsonaro na eleição para senador – e é mesmo. Ninguém contesta isso. Mas nem assim ele embarca na Aventura Flaviana. Por aí.
