Primeiro foi Maria Rita em dueto mercantil com a mãe Elis Regina. Em 2023, a cantante do mundo real e a cantante do além se juntaram num passeio de kombi para vender a marca Volkswagen. Com a trilha sonora de Como Nossos Pais, espécie de panfleto político-existencial composto pelo romântico Belchior, a publicidade bateu fundo em corações sensíveis. Até Cabo Bebeto, Zé Trovão e Kássia Kiss se emocionaram.
Com a popularização da inteligência artificial, o mundo vive uma pandemia desse tipo de bem simbólico. Neste ano, após eliminação de Portugal na Copa do Mundo, Cristiano Ronaldo apareceu num vídeo no qual conversa consigo mesmo. Vê-se o jogador do presente num diálogo com sua versão criança. Falam sobre perdas e danos.
De repente, parece que todos querem refletir sobre a vida que levam hoje em contraste com os sonhos da criança que foram um dia. O argentino Messi faz perguntas delicadas para sua versão infantil. E, claro, o craque do pôquer Neymar Júnior não ficaria de fora de algo com essa dimensão. Devo seguir na seleção? Ele pergunta para ele mesmo.
O resultado dessas peças de marketing pessoal e narcisista é apenas constrangedor. No caso de Neymar, o lado positivo são os memes que adaptam o vídeo original para o campo da comédia. O personagem é demolido pela arma do humor. Mas boa parte do público aplaude as criações das celebridades – e exibe uma comoção genuína.
Se, no campo da arte e no esporte, essa novidade trazida pela IA produz estragos a perder de vista, pense no que poderia acontecer no âmbito da política. Já acontece. Brasil afora, gestores e parlamentares decidiram pela viagem ao eu profundo, nesse reencontro com suas versões infantis e adolescentes. Ninguém quer ficar para trás.
Quem não perdeu tempo e foi revisitar o passado numa conversa temerária, tipo eu e eu mesmo, foi Flávio Bolsonaro. Se um, apenas, já é tudo isso daí, no vídeo são três Flávios... Jesus de Belém e de Nazaré! O diálogo é a piada pronta. Flavito pergunta ao Flavão se no futuro as crianças vão poder brincar em segurança. (Aumenta o BG).
Segura aí que tem mais. O Zero Um de hoje olha para seu avatar quando jovem e para ele como infante de alma pura. Com aquela firmeza que se conhece, o candidato de agora promete que, com ele presidente, isso aqui será o paraíso das famílias de bem. É o Senhor no comando e os patriotas cuidando do Brasil livre de todos os males.
Não é obra do acaso que o senador Cleitinho Azevedo também tenha feito seu vídeo de IA nessa onda avassaladora. Além de se encontrar com sua figura quando menino, traz para o bate-papo um irmão que morreu há poucos dias. O político mineiro não perde a chance. O cenário é um campo florido, acariciado pelo sopro de uma brisa.
Agora é que os poetas do marketing eleitoral vão enfiar o pé na jaca.
