Daqui a pouco, Eduardo Bolsonaro deflagra uma campanha para que os Estados Unidos se juntem ao Paraguai e declarem guerra ao Brasil. O Congresso do país vizinho está indignado. O governo paraguaio convocou o embaixador brasileiro para formalizar uma manifestação de repúdio. Tudo isso porque, um dia desses, Lula resolveu rememorar a chamada Guerra da Tríplice Aliança. Mexeu numa ferida jamais cicatrizada.

Um fato e uma ironia. Como disse o presidente, a nação estrangeira decidiu invadir o Brasil ali no fim do século 19. Preto no branco, é uma verdade factual – embora o evento seja de uma complexidade muito além dessa constatação. Mas, sim, o celerado Solano López era dotado de uma mente perturbada, com notórios delírios imperialistas.

A ironia é que, durante décadas, predominou nas universidades brasileiras uma versão – ainda não se falava “narrativa” – na qual o Brasil era apontado como vilão da história. E quem patrocinava tal interpretação eram os intelectuais e historiadores à esquerda. Gerações se formaram sob as teses que embalavam a fantasia coletiva.

Segundo essa visão, o conflito foi uma trama para barrar, na origem, o esplendor de uma civilização grandiosa. Brasil, Uruguai e Argentina, segundo tal construção literária, saquearam as “riquezas” que, adiante, seriam a base de uma potência internacional.

Para completar o aspecto irônico de agora, a que me referi linhas atrás, estava ao nosso lado a Argentina – do hoje inimigo mortal Javier Milei. E quem melindrou a honra paraguaia foi justamente Lula, que, embora ele mesmo negue ser de esquerda, é um comunista infernal, segundo a direita. A história dá muitas voltas.

Mas afinal as palavras de Lula foram tão graves assim? Há motivo para uma crise diplomática entre os dois países, até com repercussão na Casa Branca? Eduardo e Paulo Figueiredo vão pedir novas sanções contra o Brasil. Flávio Bolsonaro tenta encaixar um discurso para ganhar pontos na corrida eleitoral. O pessoal do marketing avalia.

Não se pode negar a reação dos vizinhos. Embaixadores, governadores e parlamentares acusaram o golpe. Todos muito magoados com o menosprezo com o qual Lula teria se referido àquele episódio de mais de um século e meio atrás. A imprensa, de lá e de cá, gastou tinta, papel e telas com reportagens, entrevistas, análises e infográficos.

Não há crise nenhuma. Não há perigo de uma ação bélica entre os lados. O que há é o clássico escândalo sobre o nada. No mais, recomendo o extraordinário Maldita Guerra – Nova história da Guerra do Paraguai, do historiador Francisco Doratioto. Está tudo aí.