Para disputar a eleição, apresentadores e comentaristas que atuam na TV ou no rádio se afastaram dos veículos. A data-limite foi 30 de junho. No dia seguinte, eles continuaram nas telas – do celular, do notebook, da Smart TV. Muitos desses candidatos têm mais audiência nas redes sociais e no YouTube do que nos veículos tradicionais dos quais tiveram de se afastar. Visto por esse ângulo, a regra parece ter perdido o sentido.
Além disso, no programa nos meios tradicionais, o jornalista e o radialista poderiam tratar de esporte ou veterinária, por exemplo, sem fazer a mais remota referência ao universo da política. Já nos novos meios digitais, eles falam abertamente do jogo político e das eleições. Não parece coisa de maluco? A norma ficou anacrônica.
Não estou defendendo uma coisa ou outra. É tudo muito novo ainda. Não sei se o veto deveria cair em todo seu alcance ou se poderia haver alguma modulação. O repórter que aparece uma vez por semana, contando uma história de vacas ou galinhas, num programa de TV, às 7h do domingo, leva vantagem na disputa eleitoral?
Você acha que esse mesmo repórter alcança um público maior do que um candidato que está online, na hora que bem quiser, no Instagram ou em canais do YouTube? Na verdade, nem sei se essas comparações têm alguma lógica ou não. O certo mesmo é que os candidatos estão no ar o tempo todo, falando para as multidões.
Agora: o que ocorre é que estamos assistindo em tempo real à materialização de algo milenar. Em todas as épocas, as transformações no cotidiano – de modos, hábitos e demandas práticas, digamos assim – atropelam os códigos legais. Em outras palavras, as novidades capazes de afetar a vida das pessoas fulminam o ordenamento jurídico.
O fenômeno se torna mais desafiador quando essas novidades são forjadas na velocidade de criações tecnológicas. Ou o mundo todo não está numa busca meio atarantada por regulações sobre o Metaverso? A parada já é outra lá na ponta – na rua e na casa, na escola e na praia, na solidão e no coletivo –, e as velhas regras são inúteis.
Bom, mas eu falava apenas de sistema eleitoral, candidaturas e disputa por votos para se obter um mandato. Uma demanda mais prosaica para o nosso dia a dia – que afinal se apresenta apenas de dois em dois anos. Não é nada tão grave quanto os dilemas que sacodem o mundo. De todo modo, a Justiça Eleitoral vai avaliar o tema. Não sei quando.
