Em sua coluna no portal Metrópoles, Mário Sabino (foto) reclama da velha imprensa. Para ele, os grandes veículos não dedicam a devida atenção a um debate da hora: o Projeto de Lei sobre misoginia, aprovado no Senado e em tramitação na Câmara. O jornalista não é defensor da criminalização da prática de misoginia, como prevê o PL. Ao contrário, ele tenta desqualificar a deputada Tabata Amaral, que é relatora do texto.

Não vou escrever sobre o mérito do projeto. O alvo aqui é, reitero, a crítica de Sabino à imprensa. Para sustentar sua opinião de que o tema é negligenciado, ele argumenta o seguinte: “É assunto que mobiliza mais as redes sociais do que a imprensa, em outro episódio que mostra a distância entre as preocupações dos cidadãos e os assuntos selecionados pelos editores de jornais e sites”. É um ponto de vista que causa surpresa. 

Seguida à risca a tese do ex-redator-chefe da Veja, a imprensa profissional deve cobrir com atenção máxima tudo o que “mobiliza” as redes sociais. Não sei se ele fala o que fala por convicção ou por casuísmo em defesa de sua bandeira – no caso, contrária ao PL. Ou seria mais um medalhão cerrando fileira contra a tradição das antigas redações?

Se, ainda segundo o argumento de Sabino, as redes se tornarem a palavra final sobre as pautas da imprensa, as tretas e os nudes de anônimos e celebridades vão colonizar todas as manchetes, em todos os veículos. Com a mesma lógica, vamos nos render às demandas da manada, não importam quais sejam. Se dá ibope, publique-se.

Ora, esse é um histórico dilema no jornalismo desde sua origem – quando “rede social” era a fofoca de boca em boca. Afinal o que é notícia? Foi para o indivíduo não sucumbir à estridência insana das ruas, ao vale-tudo das massas e à futilidade da superfície que, um dia, nasceram reunião de pauta, checagem, repórter e editor. Não sei se fui claro.

Sim, tudo mudou. É, como sempre escrevo por aqui, o império do Metaverso. Quem manda é a Geração Z, os modernosos de sempre e até patotas que se autoproclamam extraterrestres. Até o livro está no radar dos caçadores de velharias. (Acho que desviei do eixo central, embora tudo isso esteja em algum nível “conectado”).

Mundo afora, a maioria das pessoas diz que se informa pelas redes sociais. TV, jornal, rádio, site e todo o resto fica para trás na preferência da Nova Era. Não haverá problema se o que realmente interessa estiver no centro da operação: profissionalismo, rigor, apuração incansável e outras variáveis igualmente indispensáveis.

Mas são esses princípios que predominam na produção de notícias nas redes? Pergunta retórica. Com microscópicas exceções, sabemos todos, incluindo Mário Sabino, que não é assim que a banda toca. Defender que a imprensa tem obrigação de seguir o arrastão na esfera digital é pular no abismo – a sentença de morte do jornalismo.

Suspeito que há uma boa dose de ressentimento do colunista do Metrópoles com sua antiga tribo naquela velha imprensa. Mais ou menos como acontece com Augusto Nunes e Alexandre Garcia, entre outros. Perderam o poder descomunal que exerceram durante décadas. Exaltam as redes sociais para menosprezar o jornalismo clássico. Por aí.