Começando pelo óbvio, lembremos que a disputa eleitoral reproduz todos os modos, parâmetros e cacoetes de qualquer outra disputa tomada pelas tradições da masculinidade. Por isso, numa campanha você vai encontrar aquelas ideias rebuscadas sobre combate à violência nestes termos: “Comigo no governo, bandido aqui não se cria”. Virou um clássico nas eleições, uma presepada reproduzida até a náusea.
Sujeito homem candidato a governador garante: “A partir de primeiro de janeiro, ou o bandido vai embora do estado ou vai ser neutralizado”. Candidatos Brasil afora confundem programa de governo com carta de intenções em gramática miliciana. Delinquência intelectual é vendida como “coragem para enfrentar os desafios”.
Puxando pela memória, lembrei da campanha do hoje deputado federal Alfredo Gaspar em 2020, quando ele foi candidato a prefeito de Maceió. A peça principal da propaganda na TV terminava com a imagem de um soco na mesa e com um texto que usava o slogan “pulso firme”. Tosco na forma, grosseiro na mensagem. “Trash”.
Além das ideias e ações que mostram a valentia desse tipo de político, há um lado complementar: exaltar a própria macheza e levantar dúvidas sobre a masculinidade do adversário. Bolsonaro, é claro, abusou desse expediente ao longo da carreira. A última vítima foi João Doria, “acusado” de calcinha apertada. O nível é isso daí.
E agora falemos de aves e galinheiros aos quais o título faz referência. Na toada existencial dos valentões, Ronaldo Caiado – homem do Cerrado, do agronegócio, do pastoreio e da cantoria sertaneja – recorreu à tradição medieval para criticar Flávio Bolsonaro. “Vocês já viram frango de granja, meus jovens?”, perguntou para sua plateia.
Foi neste domingo 26 de julho, durante a convenção do PSD que oficializou a candidatura do presidenciável. Sem citar o Zero Um nominalmente, Caiado seguiu: “Aquele candidato assim, que na vida não tem como explicar nada, qualquer coisa aí chama o papai, vou ler uma carta dele. Igual frango de granja, vai comer uma raçãozinha”.
“Carta do papai”, todo mundo entendeu, é referência a Flávio, que, nas palavras do candidato, é o “franguinho que fica na sombra bebendo água com antibiótico”. E Caiado é o quê nessa fauna? “Comigo não. Eu sou galo de terreiro, acostumado na briga”.
A espécie cabra da peste se espalha por todos os biomas brasileiros. É uma ironia que um legítimo Bolsonaro – o clã dos imbrocháveis – seja alvejado no quesito macheza por um representante de mesmo campo político. Os dois se ajeitam no mesmo poleiro.
