Instalou-se um clima de que algo de muito grave está para acontecer. Não apenas mais um escândalo, uma operação da Polícia Federal ou uma briga no coração de um grande partido. Tudo isso, aliás, já aconteceu. Novos episódios seriam apenas mais do mesmo – embora com potencial para tumultuar o que está em ebulição. No atual panorama da política, denúncias, flagrantes de maracutaia e prisões estão aí faz um bom tempo.
Estamos falando da corrida eleitoral. A percepção de que está a caminho uma reviravolta na disputa pela Presidência decorre da crise na campanha de Flávio Bolsonaro. A última treta para o rapaz é a revelação de que ele recebeu 500 mil reais de uma empresa ligada ao banco Master. Seria o pagamento por supostos serviços de advocacia.
Embora seja advogado, até hoje ninguém sabia que o Zero Um atuava no mercado do Direito. Além de embolsar mais essa grana com origem em Daniel Vorcaro, a “banca” de Flávio emitiu duas notas fiscais no valor de 500 mil reais cada uma, para outra empresa também ligada ao Master. Dias depois, essas notas foram canceladas. Mistério.
O pré-candidato gravou um vídeo desajeitado, com explicações igualmente desajeitadas. De novo, falou um bocado, se fantasiou de perseguido político e não convenceu nem seus aliados. A nova encrenca surge menos de 24 horas depois das declarações falsas – e golpistas – sobre urnas eletrônicas. É uma lambança atrás da outra.
Retomando a hipótese do começo do texto: as novas presepadas de Flávio turbinam esse nevoeiro denso que se abateu sobre sua aventura eleitoral nas últimas semanas. De vários lados e ao mesmo tempo, cresce a expectativa de um abalo mais profundo.
A dois dias da convenção para lançar a candidatura, o virtual candidato vai se desmilinguindo, desnorteado, ferido quase de morte pelo conjunto da própria obra. Partidos negam alianças, nomes para vice rejeitam o convite. Um cerco vai se fechando.
Outra sinalização de que o panorama mudou são as últimas manifestações de Ronaldo Caiado. O pré-candidato do PSD, com Kassab de vice, parou de poupar o adversário do mesmo campo – e partiu para o ataque. Sobrou também para Eduardo, o fujão.
Representante top da elite conservadora, o velho Estadão dedica editoriais na defesa de uma alternativa ao candidato do bolsonarismo. Colunistas vão na mesma linha. É muita coisa simultaneamente. Placas tectônicas se movem na estrutura da República.
Flávio, também chamado de TARIFLÁVIO, esperneia. Terá de arranjar um jeito para resistir. Com base nos 30% fiéis no eleitorado, a direita talvez seja obrigada a engoli-lo. Assim, na pior das hipóteses, pode sobreviver no modo não tem tu, vai tu mesmo.
