Ciro Gomes segue firme no projeto de emporcalhar a própria biografia. Aliado ao bolsonarismo no Ceará, ele está numa situação típica da velha política. É constrangedor ver o ex-ministro reproduzir tudo o que até ontem ele condenava – nos outros – de forma implacável. A aliança com o PL de Bolsonaro e Valdemar é uma homenagem ao casuísmo mais depravado. Tudo para ganhar a eleição para governador em seu estado.

Sim, todos sabemos, cada eleição é uma história diferente. Os rivais de ontem podem estar juntos no mesmo barco na disputa de hoje. Claro, política é essa “arte do diálogo”, e sempre é possível um acordo com o antigo rival. Estão aí Lula e Alckmim para confirmar a eterna tradição. Estão aí, afinal, Sergio Moro e a família Bolsonaro.

O problema de Ciro é a dimensão desse fenômeno. Como diria Michelle Bolsonaro, “esse cidadão” passou anos fuzilando o bolsonarismo e a extrema direita. Em seu discurso oportunista e ressentido, Lula e Jair Messias são iguais. Garantiu várias vezes que jamais estaria ao lado dessas “forças que representam o atraso”. O compromisso com a ética.

Depois de farejar que uma candidatura a presidente em 2026 teria o mesmo desfecho de sempre, com votação de nanico, decidiu voltar para casa. Mas, para brigar com chances reais de vitória contra o PT, o homem precisava de aliados fortes. Para tanto, a vestal se dobrou à ultradireita, deu um cavalo de pau e garantiu a chapa competitiva.

Há um aspecto que torna as coisas mais esquisitas nesse rolo. O PL tem um candidato a presidente – e Ciro Gomes precisa explicar por que não declara apoio a Flávio Bolsonaro. Filiado ao PSDB, ele acaba de agitar o noticiário ao dizer que pode votar em Ronaldo Caiado ou até mesmo em Renan Santos. Mas qual a diferença entre os três?

A rigor, nenhuma. O trio vocifera o mesmo discurso, com variações de estilo, e corteja o mesmo eleitorado. Com esse malabarismo, Ciro consegue apenas irritar alas do próprio PL, além de reacender a fúria de Michelle Bolsonaro. Ela reagiu à declaração de voto em Caiado ou Renan afirmando que “a direita no Ceará está vendida”. Uma crise sem fim.

Uma das versões que tentam explicar as escolhas acanalhadas de Ciro Gomes é a de que ele mira 2030. Sem Lula no páreo, ele voltará a se lançar candidato ao Planalto, apresentando as glórias de sua gestão em terras cearenses. É uma interpretação que parece de fato plausível. Falta combinar com os eleitores que vão às urnas este ano.

Tem mais um problema. Ele não é o único a fazer planos para daqui a quatro anos. É tempo demais, é muito longe. E, vamos combinar, em política isso já é um delírio. Porque, canta o poeta, o futuro é a próxima respiração. Um sopro, e muda tudo.