Era só o que faltava. Como não tem muito trabalho no STF e no TSE, o ministro Kassio Nunes Marques decidiu investir seu tempo e sua energia num projeto que ele julga prioridade para o país. Vem aí um selo de qualidade para institutos de pesquisa. Quem mais chegar perto do resultado das eleições será premiado com esse título de reconhecimento. O magistrado já apresentou uma minuta da presepada.
A brilhante ideia do presidente do Tribunal Superior Eleitoral – sim, é ele mesmo – foi entregue para representantes de 16 empresas de pesquisa nesta terça-feira 14 de julho. Ele deu prazo de quatro dias para que os institutos façam sugestões à sua invencionice descabida. Surpreende que alguns institutos tenham, a princípio, concordado com isso.
Especialistas lembram o óbvio: pesquisa não é tentativa de prever o resultado da eleição. Não é uma gincana para ver quem advinha o desfecho de uma disputa eleitoral. O levantamento retrata cenários e tendências num determinado momento. Circunstâncias mudam do dia pra noite – e no embalo muda também a escolha do eleitor.
Segundo o juiz, serão avaliadas as pesquisas de boca de urna e as realizadas até 7 dias antes da votação. Não estão definidos os critérios para aferir a qualidade dos trabalhos – isso será alvo de “regulamentação”. Nunes Marques fala em “celebrar a excelência técnica”. O selo incentiva transparência e atesta credibilidade, segundo ele.
A iniciativa do ministro é um erro em várias frentes. A Justiça Eleitoral não pode se meter a autoridade científica sobre matemática, estatísticas e projeções nesse segmento. Estamos, ao que parece, na iminência de uma Escolinha do Professor Kassio. Ele vai premiar, com o tal selo, aqueles que se destaquem na aplicação de suas pesquisas.
“É uma coisa absolutamente bizarra, que não existe em nenhum lugar do mundo e que precisa ser evitada”, diz o cientista político Antonio Lavareda em reportagem da Folha. É isso. Se a ideia virar realidade, haverá certamente o risco de institutos mequetrefes e irrelevantes agirem para garantir o selo. É bom que isso não avance.
Nunes Marques censurou pesquisa a pedido de Flávio Bolsonaro. Ao que parece, tenta harmonização intelectual na imagem de censor. Mas ele escolheu o caminho da extravagância ao propor um prêmio para empresas privadas do ramo pesquiseiro. O projeto ora exibido vai para o entulho de bobagens que floresce no Brasil sem parar.
