Tenho perguntas, e não respostas. Se no âmbito nacional, a palavra polarização parece uma ideia mais do que consolidada, qual o peso desse fenômeno nas disputas estaduais? O senador Renan Filho, ministro até um dia desses, é o candidato de Lula na eleição para governador. Em 2022, Paulo Dantas se elegeu também alinhado ao petista. Foi decisivo? Não dá para cravar o “sim” com a certeza que descarte outras variáveis.

Uma coisa é a guerra pelo Planalto em vigor desde 2018. Outra coisa são os confrontos regionais. A governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, lidera a corrida atual num estado em que Lula bate o bolsonarismo, assim como em todo o Nordeste. João Campos, que dá palanque ao presidente, ficou para trás, segundo as últimas pesquisas.

Na Bahia, outra fortaleza do atual mandatário do país, ACM Neto está na liderança. Quatro anos atrás, ele também liderava com folga, até cometer, ao que parece, alguns erros que teriam sido fatais para a virada do atual governador, Jerônimo Rodrigues. O embate se repete este ano, com o petismo correndo perigo de uma derrota.

No Rio de Janeiro, base fiel de Jair Bolsonaro, o bolsonarismo não construiu uma candidatura que ameace o favoritismo do ex-prefeito Eduardo Paes. Fosse hoje a eleição, Paes ganharia no primeiro turno. O deputado estadual Douglas Ruas, do PL, não faz nem sombra para o adversário. Cadê a força do ex-presidente para seu candidato?

Aqui temos uma velha questão: afinal, existe transferência automática de votos? “Candidato de Lula” ganha os votos do eleitor que vota no petista na briga pela Presidência? “Candidato de Bolsonaro” é dono do eleitor de Flávio, o filho do homem? Historicamente, não é assim que decide o eleitorado. A cabeça do povo gira em frequência mais complexa. O risco de uma previsão furada é uma armadilha atraente.

Além disso, é preciso avaliar com mais precisão o que de fato seria e como se materializa a suposta “polarização” – que já virou um clichê para explicar tudo de modo simplório. A palavra mágica jorra por toda a imprensa e seus afluentes com a voracidade de uma pororoca. Um conceito cristalizado acaba por turvar a vista para outras interpretações.

Em Alagoas, ainda não há o nome definido que dará palanque a Flávio Bolsonaro. João Henrique Caldas não é um bolsonarista como gostariam os líderes da extrema direita por aqui. Lula lidera com folga entre os alagoanos, mas, pelas pesquisas, Renan Filho está em empate técnico com JHC. Ou seja, até agora não é o escolhido de parte dos que se dizem eleitores do presidente. O estado não é um espelho da disputa nacional.

De tanto falar em polarização, com sentido mais negativo do que o contrário, tornamos o debate mais raso e pouco esclarecedor. A eleição está mais aberta do que supõe o raciocínio tomado por essa ideia fixa. Até as urnas, recomenda-se cautela.