O voto feminino é uma conquista que demorou mais de três décadas para acontecer após a Proclamação da República. Virou lei apenas em 1932. No movimento que levou o país a sair das trevas e avançar na direção de uma sociedade mais civilizada, está uma alagoana até pouco tempo esquecida. Trata-se de Almerinda Ferreira Gama, uma pioneira na mobilização por direitos civis e sindicais – ainda na pré-história brasileira.

A impressionante jornada da mulher que derrubou limites e preconceitos dos mais variados tipos está em sua biografia, escrita pela também alagoana Cibele Tenório, pesquisadora que vive em Brasília. Almerinda Gama – A Sufragista Negra é um trabalho essencial para se entender as origens e a dimensão de um processo que não acabou.

Quase um século depois da guerra na qual Almerinda Gama tem papel decisivo – com a vitória pelo voto da mulher –, uma ala da política brasileira prega o retorno à escuridão e à barbárie. Pois é. Os cidadãos de bem agora querem cassar o direito ao voto de mais da metade da população brasileira. A extrema direita quer vetar o voto da mulher.

Não é de hoje. Mas o projeto ganhou visibilidade após a fala indecente de Paulo Figueiredo, o parça de Flávio Bolsonaro que vive nos Estados. “A mulher vota mal pra caralho”, defende o neto do último ditador, que odeia pobres, nordestinos e pretos – e despreza, claro, as ideias e a atuação do público feminino. É ideólogo do bolsonarismo.

Onde o Brasil foi bater! A extrema direita se pretende guardiã dos “verdadeiros valores” da família tradicional. Na prática, manda o macho, a mulher obedece. Nessa linha, vejam que ideia “revolucionária”: querem instituir o “voto familiar” – uma casa, um voto. Já ouviu falar sobre isso? Está em pleno e acalorado debate nos Estados Unidos.

O voto deixaria de ser um direito universal de todos. O indivíduo seria tolhido no exercício de algo básico numa sociedade democrática. Quem vota é o dono da casa, o chefe da família – o homem. Esse é o avanço que está no programa de governo da direita mundo afora. Como copia tudo, a ultradireita brasileira já macaqueia o projeto americano. 

Estou esperando a vanguarda da direita alagoana convocar a próxima manifestação à beira da praia, no Corredor Vera Arruda, para defender que a mulher “fique no seu lugar”. Voto é coisa para machos da filosofia Legendários. Este é o padrão dos que lutam em nome da nova política, para restaurar e reviver um Brasil de tintas medievais.

Quem sabe Cabo Bebeto, na Assembleia, e Leonardo Dias, na Câmara Municipal, não apresentam projetos de lei para banir o voto da mulherada na capital e no estado? Façam isso. Assim vocês seguem seus líderes e mostram que são soldados dispostos a tudo – até ao vexame e ao ridículo. Não duvidem. Essa turma não é de brincadeira.

Truculenta, boçal e inculta, a gentalha da extrema direita age sob uma engrenagem para produzir o caos – na crença de que, como disse Bolsonaro, antes de tudo, precisamos destruir. É nessa visão de mundo que se encaixa o ataque ao voto feminino, ideia que mistura misoginia, desprezo pela diversidade e vale-tudo por um projeto de poder.

Almerinda Gama encarou tudo isso há nove décadas. Uma lição para hoje.