É uma ironia que a crise na coleta de lixo em Maceió ocorra justamente nas semanas de junho e começo de julho. É o período no qual a prefeitura gasta uma fortuna milionária nas festas juninas. Um único cachê, pago ao cantor-celebridade, sai por 1,5 milhão de reais. Sobra dinheiro para eventos eleitoreiros. Para o básico na cidade – o recolhimento do lixo doméstico –, aí falta recurso. Afinal o que é prioridade na gestão pública.

O problema que explodiu agora não é de hoje, deve-se ressaltar. As falhas no serviço começaram há alguns meses. Consta que as empresas que atuam na área penam para receber os repasses da prefeitura faz muito tempo. Os sucessivos atrasos ferem os contratos em vigor. O que é que há? Os cofres municipais estão vazios?

Durante o mandato do prefeito João Henrique Caldas, o orçamento ganhou reforço de nada menos que 1,7 bilhão de reais repassados pela Braskem. A mineradora destruiu um bairro inteiro da capital, numa tragédia para milhares de famílias. Mas a prefeitura saiu no lucro. Foi uma maravilha para o gestor tiktoker. Canteiro de obras para todos os lados.

O atual prefeito Rodrigo Cunha – o senador que virou vice de JHC – não conta com um financiador à altura da Braskem. Ficou mais difícil. O “jovem” gestor enfrenta dificuldades para tocar a rotina em várias áreas, e não apenas no quesito limpeza urbana. Não se sabe ao certo o tamanho da crise que agita Jaraguá, recanto que abriga a prefeitura. 

Contam nos bares e quebradas da capital que a turma mais próxima de Cunha acusa o ex-prefeito pelo sufoco orçamentário. Em 3 de junho, escrevi aqui um texto com o seguinte título: “Só falta Rodrigo Cunha denunciar ‘herança maldita’ na prefeitura de Maceió”. É o que defendem alguns mais irritados com o legado de João Henrique.

Não acredito nessa hipótese – a não ser que apareça alguma bomba capaz de estragos generalizados. A verdade é que a parceria JHC-Cunha é uma amarração cheia de pontas e curvas espalhadas por vários quilômetros. O compromisso entre os parças tem uma complexidade política difícil de ser rompida unilateralmente. Por aí.

Ficamos então nesse panorama que parece um retrocesso de décadas. Já tivemos a “máfia do lixo” e coisas assim nessa área. A ver os desdobramentos do atual problema. Não vi o prefeito dar alguma explicação sobre o caso. Talvez tenha mensagem para rede social – espaço no qual o político fala pelos cotovelos, mas não esclarece nada.

Lembrei que nos últimos dias, JHC e Cunha se encontraram em eventos da prefeitura. Ato de campanha eleitoral na reta final do prazo imposto pela legislação. Nessas ocasiões, nenhuma palavra sobre o quase colapso que emporcalha a cidade.