Mais de 10 milhões de brasileiros não lembram em quem votaram para presidente na eleição de 2022. Os dados são de pesquisa Datafolha divulgada neste domingo 28 de junho. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, temos hoje aproximadamente 155 milhões de eleitores. O percentual de desmemoriados quanto ao voto para escolher o governante a tocar os destinos do país é espantoso – mas não uma surpresa. Dá o que pensar.
E olhe que a disputa ficou praticamente restrita a dois candidatos, Lula e Bolsonaro – o que torna a constatação da pesquisa ainda mais perturbadora. Como esquecer nossa opção num duelo eleitoral tão acirrado, quando se fala até de “calcificação” do voto? Para resposta mais precisa seria necessário estudo profundo sobe o fenômeno.
O esquecimento do eleitor é alvo de debate desde os primórdios das eleições. Mas isso sempre foi associado às escolhas para o Legislativo. Você já ouviu esta sentença: alguns meses depois das urnas, ninguém se lembra mais em quem votou para vereador ou deputado. Daí a mediocridade alarmante do nosso parlamento. Uma desgraça.
O panorama desolador também está, como se verifica agora, no voto para o Poder Executivo. No mesmo Datafolha, temos a revelação de que 38% do eleitorado diz não saber quem foi seu escolhido para governador. A memória descartou essa informação. Na prática, é assim: não sei se quem comanda o meu estado teve o meu voto ou não.
Se um terço dos eleitores esqueceu o destino do voto para o governo estadual, qual a relevância dispensada a essa escolha a cada quatro anos? A situação parece combinar com outra variável consagrada sobre política e eleições: a vasta maioria da população somente se liga na corrida eleitoral às vésperas da decisão, na boca da urna.
Esse quadro, a princípio, não seria compatível com a carnificina que toma conta do debate sobre esquerda e direita, lulismo e bolsonarismo, “liberais” e “comunistas” – entre outras categorias de oposições ideológicas. Porque, se há tamanho engajamento, como esquecer a identidade do voto? Sinal de que o tal “engajamento” é meio fake.
A briga política se alastrou, invadiu todos os ambientes – até a dimensão dos afetos mais íntimos – e não se pensa em outra coisa. Prova disso é o que ocorre nas redes sociais. Mas o número dos que perdem a memória sobre o próprio voto põe em xeque essa interpretação definitiva. Esquecer do voto até para presidente é doideira demais.
