O caso Michelle não para de produzir comentários, análises e especulações dos mais variados tipos e modelos. Por isso, volto ao tema abordado em texto anterior. A repercussão do vídeo da ex-primeira-dama parece inesgotável – ao contrário da fantasia retórica de Flávio Bolsonaro resumida na expressão “página virada”. Foi o que ele disse nesta sexta-feira na tentativa de subestimar a bomba sobre sua campanha.
Não adianta negar o inegável. A fuga da realidade não elimina os fatos. Assim, os estragos das palavras da presidente do PL Mulher são muitos e ainda podem provocar danos insondáveis até agora. Na pororoca de textos espalhados pela imprensa, há quem veja um terremoto nas pretensões eleitorais do senador. O candidato estaria apavorado.
A reação inicial do próprio Zero Um expôs sua desorientação diante do bombardeio inesperado. Primeiro, ele tentou desdenhar do acontecido. Era dia de jogo do Brasil – detalhe tão inusitado quanto misterioso. A data foi de caso pensado? Flávio reagiu dizendo que nada iria barrar sua torcida pela seleção. Logo depois, mudou de ideia.
Em duas manifestações – por texto e depois em vídeo –, ensaiou um pedido de desculpas fingido. Insinuou que a madrasta má age por descontrole emocional, numa tática recorrente para desqualificar a opinião de uma mulher. Acrescentou que sua candidatura é uma missão recebida do pai, uma maneira de sensibilizar o eleitorado fiel do condenado por golpe de Estado. Mais um sinal de uma mente à deriva.
Por que somente agora Michelle resolveu denunciar uma situação de meses atrás? Bolsonaro foi avisado da iniciativa de sua senhora? Se foi, tentou dissuadi-la da ideia, concordou ou foi ignorado por ela? Qual o objetivo real de Michelle com a gravação? O que ela ganha detonando a crise na própria família? Sobram perguntas sem respostas imediatas e muito menos definitivas. Daí as mais variadas suposições e profecias.
O caso ainda pega outra frente na algaravia de opiniões: trata-se de um debate, ainda que lateral, sobre submissão, autonomia e insurgência do poder feminino. Michelle desafia o machismo que ela própria até agora alimentava? Ela representa a mulherada em geral ou fala apenas para seu público, o que inclui as damas evangélicas?
E afinal o que pensam de tudo isso os seguidores da seita bolsonarista? Fecham com Michelle ou ficam ao lado do enteado que a maltratou? E a pergunta, mais uma e a mais intrigante de todas: para onde vai o eleitorado devoto dos Bolsonaro?
A única coisa sobre a qual não se tem dúvida é: este é o acontecimento mais grave até hoje na corrida eleitoral. As próximas pesquisas vão dizer o tamanho das eventuais consequências. Ainda assim, o episódio será alvo de revisões e diagnósticos mesmo após a eleição. Será um capítulo sempre aberto a novas interpretações.
