Michelle Bolsonaro é fenômeno inédito na política brasileira. Nunca houve uma primeira-dama como ela ao longo de mais de um século em nossa República. Nada indicava que teria o protagonismo que alcançou no epicentro de um grupo ideológico dominado pelos abrutalhados métodos da macharada. Afinal, na extrema direita, o papel da mulher é cuidar da casa, do marido e dos filhos. Submissão é a palavra de ordem para elas.

Durante a campanha de 2018, que levou Jair Messias ao Planalto, Michelle parecia destinada a cumprir cegamente as regras de subserviência ao “chefe da família”. Que eu lembre, deu apenas uma rápida entrevista ao repórter Helter Duarte, exibida no Jornal Nacional. No mais, praticamente não apareceu nos holofotes naquele período.

As coisas foram mudando aos poucos a partir de 2019, quando o marido assumiu a Presidência. Inicialmente, passou a cumprir o roteiro previsível ao participar de ações sociais do governo. Até aí, foi o que fizeram as primeiras-damas que vieram antes. A atuação propriamente partidária ainda não havia se tornado algo de destaque.

Se o mandato de Bolsonaro serviu como treino para atuação política, a transformação definitiva começou a partir de 2023, após a derrota de Jair Messias para Lula. Michelle virou presidente do PL Mulher e, nessa condição, correu o Brasil, de palanque em palanque, construindo uma relevante rede de apoios e alianças.

A discrição vista nos anos anteriores deu lugar a uma ofensiva para ocupar o status de liderança nacional. Para isso, um forte ativo é justamente o público feminino, maior parcela do eleitorado no país. A outra frente que fortalece a ex-primeira-dama é o segmento evangélico. Ou seja, ela manda bem em dois ambientes cruciais na eleição.  

Com todo esse poder de influência no eleitorado, Michelle acaba de produzir uma tremenda crise na campanha de Flávio Bolsonaro. Ela diz que foi “maltratada” e chamada de “idiota” pelo enteado. “Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou no telefone”, afirma em vídeo de 26 minutos com padrão profissional. 

Palavras fortes contra o pré-candidato que já está enroscado no escândalo do Master. Flávio sentiu o golpe e tentou se explicar, mas acabou piorando as coisas para ele. Pode se queimar um pouco mais com aqueles dois públicos – mulheres e evangélicos. Michelle queria o posto de presidenciável – e pelo visto ainda sonha com isso. 

Da redemocratização para cá, nada parecido. De Collor a Lula, nenhuma primeira-dama alcançou esse patamar. Rosane Collor ficou marcada pelos atritos com o então marido. Ruth Cardoso era a intelectual ao lado de FHC. Marisa Letícia nunca chegou perto da política. Marcela Temer era “bela, recatada e do lar”. Janja da Silva abre sua trilha.

Michelle Bolsonaro quebrou os padrões – e parece disposta a avançar.