Se o ano novo só começa após o Carnaval, como reza a tradição, decisões políticas ficam para depois da Copa do Mundo. Vale o mesmo para os efeitos de operações policiais, de anúncios e declarações sobre qualquer tema na vida brasileira. É mais ou menos por aí o entendimento geral entre lideranças partidárias, analistas e editoriais na grande imprensa. Até o meio de julho, o que mobiliza é a bola nos gramados.

No país do futebol, não adianta brigar com a realidade que se impõe a cada quatro anos. Jaques Wagner flagrado na trama do Master. Flávio Bolsonaro devendo explicações sobre os milhões recebidos de Daniel Vorcaro. O banco de Edir Macedo roubando em nome do Senhor. Michelle Bolsonaro detonando os filhos do maridão preso, expondo a guerra no seio da tradicional família patriota. Nada disso desbanca a audiência “copeira”.

Se nem os escândalos ganham as manchetes, as especulações sobre alianças eleitorais, então, ficam praticamente invisíveis. Sim, as notícias são publicadas, mas a repercussão é imediatamente suplantada pelos dilemas com a escalação do time de Carlo Ancelotti. Quem quer saber de Ciro Gomes e Romeu Zema diante da volta de Neymar?

Como meio mundo na política está atolado no pântano de mutretas variadas, todos respiram com algum alívio durante essa pausa para hidratação. É um mês de refresco, sem a pressão que haveria em tempos de normalidade no calendário. No Congresso Nacional, a agitação e as brigas deram lugar à torcida pela miragem do hexa.

André Mendonça e Gilmar Mendes até que tentam virar o jogo com deliberações e bate-boca. Em dias normais, estariam no topo dos portais, no alto das primeiras páginas dos jornais que ainda restam. É tudo o que a imprensa adora. Mas o que é o Supremo diante da apreensão sobre o futuro do Brasil no mata-mata que vai começar?

Com o monopólio do esporte no noticiário – e na vida de todos nós –, aumenta o perigo de jogadas sorrateiras por parte de autoridades. Enquanto você dedica toda atenção para os lances em campo, sai, por exemplo, um decreto para ferrar os interesses coletivos. A janela de oportunidade vira um portão escancarado para medidas que passam na boa.

Claro que, em ano eleitoral, as maquinações não param por nada. Mas o alcance do que é costurado agora somente será dimensionado ao fim da competição. Não é que o futebol seja o “ópio do povo”, nem sintoma de alienação geral. Mas, para os “craques” da política, a ocasião é ideal para um drible sobre a desatenta torcida pela amarelinha.

Tudo bem. Passamos em primeiro lugar no grupo. O resto fica para mais adiante.