Vamos dar um basta à roubalheira neste país e botar os corruptos na cadeia. Você poderia atribuir o que acabou de ler a Alfredo Gaspar ou a Jair Bolsonaro. Afinal, são dois exemplos de jogadores da política com senso de oportunidade. Os mais jovens e os desavisados em geral tendem a embarcar no discurso que parece uma grande novidade. Mas não. Isso é tão antigo quanto a demagogia mais rastaquera na história brasileira.

A rapinagem dos cofres públicos não tem ideologia nem cores partidárias exclusivas. Mas o “combate à corrupção” é a bandeira mais recorrente nos lados da extrema direita, golpista desde os primórdios. Num breve recorte histórico, o mar de lama denunciado pela UDN está no centro da tragédia de 1954, resumida no suicídio de Getúlio Vargas.

Seis anos depois, nas eleições presidenciais, lá está mais um salvador da pátria com a promessa de livrar o país da ação de todos os ladrões. Era o “homem da vassoura”, Jânio Quadros, decidido a varrer os corruptos da paisagem nacional. Eleito presidente, trocou de bandeira e saiu à caça de moças de biquíni e apostadores em rinhas de galo.

Quando os vagabundos de 1964 tomaram o poder pela força bruta, a mesma ladainha estava no centro da discurseira falaciosa. Os “honrados” militares, todos muito patriotas, derrubaram o governo democrático também para afastar a corrupção da rotina brasileira. Hoje sabe-se que os honestos de farda eram apenas larápios soltos no parque. 

Na primeira eleição direta após o regime sanguinário dos milicos, em 1989, tudo de novo. O principal “cabo eleitoral” de todos os candidatos naquela disputa era a “corrupção generalizada” no governo Sarney. Bastava gritar pega ladrão, e correr atrás da adesão do eleitor sempre disposto a celebrar xerifes e super-heróis. Deu no que deu.

Corta para 2018. É tudo tão patético que um batedor de carteira como Jair Bolsonaro se elegeu com a mesmíssima bandeira, a mesma piada, a mesma hipocrisia. Uma família inteira que enriqueceu na política – montada na corrupção – vende ao país a fábula de valentia contra a... corrupção. E este Brasil que desafia a lógica elementar caiu na lorota.

Os exemplos estão por todos os lados. Isto aqui é apenas um breve resumo de nossa trajetória, um tanto melancólica, diante de tais desvarios e equívocos, frente a ilusionistas de ocasião. Aí está, entre outros escândalos recentes, o caso do banco Master. Um tubarão da política acaba de cair na rede da Polícia Federal. Ele é Ciro Nogueira, da turma da direita. A cada hora, uma nova revelação expõe mais uma sujeira.

Não, ele não é corrupto porque é de direita. Há políticos de todas as vertentes com rabo preso no impressionante negócio de Daniel Vorcaro. Mas Flávio Bolsonaro e seus aliados no reacionarismo mais tosco ficaram tontos com as revelações sobre o senador do Piauí. Porque acusar os adversários pelo crime de corrupção é estratégia do bolsonarismo.

Por tudo isso, quando escuto valentões da política, incluindo alagoanos, afirmando que “ninguém aguenta mais tanta roubalheira”, já sei do que se trata. Em 99% das vezes, é somente mais um demagogo a reproduzir uma picaretagem de tradição milenar.