Para que serve o mandato de um deputado ou senador no parlamento brasileiro? Pergunta retórica, claro, dado que as atividades dos eleitos devem seguir os elevados interesses da população brasileira. O senador Ciro Nogueira prova que não é bem assim. Segundo a Polícia Federal, o presidente nacional do Progressistas recebia uma mesada de até 500 mil reais do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Havia contrapartida do político.
E é aí que o escândalo revela algo tão perverso quanto delinquente. O que o líder do PP dava em troca ao banqueiro era nada menos que o mandato de parlamentar. Do jeito que as coisas aconteciam, Ciro Nogueira era o senador de direito. O senador de fato era o senhor Vorcaro, numa subversão medonha de princípios e valores.
Se o crime de corrupção passiva e outros tópicos previstos no Código Penal precisam ser demonstrados cabalmente nas investigações, não resta dúvida quanto à quebra de decoro do senador. Ao Congresso não haveria alternativa que não fosse cassar o mandato de Nogueira. Mas, sabe como é, primeiro a turma pensa na própria blindagem.
O pecado mortal do suspeito foi acrescentar uma intempestiva ideia a uma emenda à Constituição que tramitava nas comissões do Senado. A proposta era elevar de 250 mil reais para 1 milhão de reais o valor que seria coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito aos investidores, em caso de um banco quebrar. Parecia perfeito, mas não deu certo.
Mensagens no celular de Vorcaro mostram que ele comemorou a apresentação do projeto pelo amigo senador. “Saiu do jeito que eu mandei”, vangloriou-se o golpista do Master. A frase não foi escrita por acaso. Tudo foi feito pelo time do banqueiro. O senador recebeu a papelada e mandou adiante sem alterar uma vírgula no texto contrabandeado.
Portanto, isto aqui está provado: Ciro Nogueira era, digamos assim, testa de ferro do então dono do banco Master. O laranja do banqueiro assinava uma proposta que recebia pronta, bem redigida por terceiros com demandas particulares naquele tipo de jogada.
É escandalosamente óbvio que não estamos diante de caso isolado. O problema é saber quantos parlamentares agem de modo semelhante, trocando suas prerrogativas por uma mesada de algum bilionário. Suspeito que a maioria está nesse padrão infinito.
Ciro Nogueira deveria perder o mandato por decisão do próprio Senado. O caminho lógico é um processo por quebra do decoro. Isso não ocorrerá porque a Casa prioriza o corporativismo abjeto. Hoje, a blindagem de um serve para todos, amanhã.
