Eleitores espalhados por diferentes países recorrem à inteligência artificial para decidir o voto. Numa rápida pesquisa pelo noticiário, vê-se que a prática é uma das grandes novidades provocadas pela disseminação do uso de IA. É simples: basta digitar uma pergunta sobre “o melhor candidato”, e o oráculo do Metaverso decreta a sua escolha. O fenômeno, é claro, alcança o estado da arte entre os representantes da Geração Z.

Perguntei ao Google o que é Geração Z. Recebi esta explicação: “São nativos digitais que cresceram com a internet consolidada e tecnologia móvel. Valorizam a diversidade, autenticidade, propósito no trabalho e sustentabilidade. São conhecidos por serem autônomos, questionadores de hierarquias”. Peraí! Essa conta não fecha.

A descrição ufanista da turma – apresentada com o uso da IA – não combina com o ato de delegar a entidades digitais o que deveria ser uma opção particular e intransferível. Decididamente, isso nada tem a ver com autonomia e autenticidade, supostas qualidades da aclamada patota que se ajoelha para os “gênios” da tecnologia.

Vejam que, na resposta do Google, a galera da letra Z também seria formada por “questionadores de hierarquia”. Mas isso é ainda mais incompatível com a presepada de terceirizar escolhas a máquinas sob o domínio de plutocratas digitais. Pelo visto, esses jovens querem ser livres para trocar a liberdade pelo cabresto. Que fase!

Os dois lados de uma campanha eleitoral – o eleitor e o marqueteiro – se renderam ao novo paradigma. Se o primeiro vota com IA, o segundo recorre à mesma ferramenta para capturar o indivíduo votante. É o que mostra reportagem de Patrícia Campos Mello na Folha. Ela informa que a pesquisa qualitativa, agora, é feita com eleitores virtuais.

E não é apenas o voto eleitoral que está sendo decidido pelos deuses do planeta digital. Antes, descolados já estavam “escolhendo” um filme ou um livro a partir desse mesmo “critério de avaliação”. Dicas de recantos gourmet com comidinhas da hora? Também se resolve com um clique. E até as interações e parcerias íntimas ficam por conta da IA.

Atenção: não vamos piorar as coisas imaginando que deixamos no passado as glórias de um paraíso perdido. Essa é a fantasia que embala gerações de todas as letras do alfabeto. A fábula de uma juventude rebelde, com a disposição e a receita para construir um mundo melhor, sempre foi o que nunca deixou de ser – uma tremenda... fábula.