Lançado em 2021, o projeto Renasce Salgadinho foi apresentado pela prefeitura de Maceió como “a maior obra ambiental e de saneamento na história de Alagoas”. A hipérbole é uma marca nesse tipo de ação política. Hiperbólicos também foram os aditivos ao orçamento original. Está nos documentos oficiais da prefeitura. A transformação geral ficaria em 76 milhões de reais. Cinco anos depois, o custo explodiu.

Com sucessivos atrasos na data de inauguração da obra, sem as devidas explicações, ao ser finalmente entregue, o saldo é este: o projeto torrou perto de 200 milhões de reais. É uma diferença brutal. Houve nada menos que quatro aditivos. Estranhamente, ao festejar nas redes sociais a entrega da obra, a prefeitura continua falando de 76 milhões de reais – o valor inicial. O pessoal da comunicação não soube dos aditivos?

Nos últimos dias, a vereadora Teca Nelma e o ex-prefeito Corintho Campelo questionaram os números e o alcance da obra. Baseada em relatório do Instituto do Meio Ambiente, a parlamentar afirma que “a praia da Avenida continua poluída do mesmo jeito”. Ela anota ainda que “a promessa era a despoluição do riacho Salgadinho”. E acrescenta: “Os dejetos, a água contaminada, todos os problemas permanecem”.

Corintho Campelo, prefeito da capital nos anos 1980, criticou o que chama de “maquiagem”. Para ele, “gastaram fortunas com a moldura, mas o quadro continua sendo a poluição de décadas”. Afirma ainda que “despoluição do Riacho Salgadinho não se resolve com estética, mas com uma equação rigorosa de engenharia social e ambiental”. Por fim, pede ao Ministério Público que investigue a aplicação dos recursos.

Ao falar na festiva solenidade de inauguração, o então prefeito João Henrique Caldas disse o seguinte: “Projeto urbanístico, bonito, que não deixa a desejar a nenhum projeto de inteligência urbanística do mundo”. A obra, garante JHC, vai além da reforma física. “É uma reforma de mentalidade”. Nenhuma palavra sobre saneamento e despoluição.

João Henrique é zeloso com o marketing. Na imprensa alagoana, reiteradamente vozes simpáticas ao ex-prefeito exaltam o Renasce Salgadinho, reproduzindo a fábula de “maior obra de infraestrutura na história da cidade”. Por isso, garantem admiradores, o homem fez algo jamais visto em nenhuma outra gestão em território alagoano.

Não sou engenheiro ambiental e nada sei sobre “inteligência urbanística”, como ensina JHC. Sei o que vejo. As margens do Salgadinho estão uma belezura. Pracinhas, bancos, plantas, ciclovia, fonte aquática, tudo bem enfeitado. Mas a água continua descendo ao mar com a podreira de sempre e a fedentina repulsiva. Saneamento e despoluição? Zero.

“Maior obra ambiental da história” é slogan eleitoreiro. O Renasce Salgadinho, ao que parece, é mesmo um primor de maquiagem – muto bonitinho, mas bem ordinário.