Milton Leite é um bom narrador esportivo que trabalhou no grupo Globo por 19 anos. Nesse período, nunca se firmou como titular absoluto entre narradores do canal aberto. A maioria dos jogos que narrou foi pelo Sportv, o canal por assinatura da maior rede de televisão do país. Em 2024, aos 66 anos, pediu demissão alegando cansaço e necessidade de “ter mais tempo para a família”. Repetiu um velho padrão nada incomum.
Agora, numa entrevista a um podcast, ele dispara algumas frases que apontam em outra direção. Sem medo de passar vexame, o profissional exibe um ressentimento em cores vivas, berrantes e constrangedoras. Leite tem coragem de atacar o que seria uma política de diversidade por parte da Globo. Ele enxerga defeito numa qualidade.
Desabafa aí, camarada: “As pessoas começaram a ser escaladas na TV Globo e no Sportv sem ter demonstrado tanta competência para passar na minha frente, por exemplo”. Alguém experiente, que fez parte de grandes coberturas, cheio de históricas para contar, prefere a tolice do autoelogio e a maledicência da crítica rasteira.
A redundância vai piorando o enredo: “Ao ter o espaço, tem que mostrar estar do mesmo nível que eu, melhor que eu ou pior que eu. E isso não aconteceu”. E completa o roteiro de degradação com este requinte: “Todo mundo tem que ter chance. Mas na hora do vamos ver, ninguém ali estava fazendo melhor do que eu”.
Já escrevi sobre esse fenômeno aqui no blog. É uma das novidades decorrentes da explosão da comunicação digital via redes sociais e YouTube. Acontece com jornalistas, apresentadores e artistas que atuaram na Globo durante décadas. Ao deixarem o antigo trabalho dão entrevistas para expor lamúrias e até “acusações” à emissora.
Até o Boni, mandachuva absoluto por uns duzentos anos no grupo global, já falou como vítima indefesa de seu ex-empregador. Até Galvão Bueno, tratado pela Globo na final da Copa de 2022 como se fosse mais relevante do que a própria final da Copa, apareceu choramingando queixumes semelhantes. Que zorra é essa, afinal?
Até Antônio Fagundes, megacelebridade noveleira, que é o que é pelas novelas da TV, foi outro que saiu com ironias sobre a “decadência da Globo”. Claro, ele só apontou a suposta curva decadente quando foi dispensado. A lista seria interminável.
Envenenadas pelo ressentimento, essas figuras atestam, em níveis variados, o que se pode enquadrar na categoria de miséria humana. Não sei se tal diagnóstico é exagerado. Pode ser que seja. Se o leitor preferir, chamemos então de o triunfo da egolatria. Por aí.
