Ainda sobre o Messias barrado no Supremo Tribunal Federal. Volto ao tema porque, nesse caso, mais do que costuma ocorrer com outros acontecimentos de repercussão, a chamada grande imprensa briga pelo protagonismo. Do jeito que as coisas se deram, quase que o jornalismo desbanca a pauta, para ser, ele próprio, o centro do noticiário. Na linha de frente da controvérsia, repórteres, colunistas e fontes secretas.
Há uma guerra de versões sobre o que teria sido determinante para a derrota do indicado de Lula na votação do Senado. Salvo engano, tudo começou com a cada vez mais afamada Malu Gaspar, colunista de O Globo. Na madrugada seguinte à sessão que selou o fiasco do governo, ela contou um enredo pra lá de surpreendente.
Segundo suas apurações – sempre em off –, Messias perdeu a parada por causa de um complô cujos atores principais foram o senador Flávio Bolsonaro, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e – e aqui está a doideira! – o ministro Alexandre de Moraes. O que une os três nessa emboscada? Segundo ela, sabotar a investigação do caso Master.
Isso mesmo: Alexandre de Moraes e Flavio Bolsonaro juntos, numa tabelinha infernal, para livrar todo mundo das barras da lei. Mas a família Bolsonaro quer o impeachment de Moraes há décadas! Como é que agora eles estariam juntos numa operação de tal magnitude? Não importa. A versão se espalhou por todos os veículos.
Da Folha ao Metrópoles, da CNN à Band, do Estadão à Globonews, do UOL à Jovem Pan, todo mundo passou a reproduzir, com variações, a trama Flávio-Alcolumbre-Moraes. O filho Zero Um candidato a presidente negou com veemência a informação.
Entre outros, jornalistas que deram tração ao suposto acordo foram Daniela Lima e Leonardo Sakamoto, no UOL. A turma da esquerda no Brasil 247 e no ICL Notícias tratou a hipótese como plausível. Folha e Estadão especularam sobre a história em reportagens assinadas por vários repórteres. Virou uma pororoca imparável e irreversível.
Duas exceções de peso foram Reinaldo Azevedo (Metrópoles e Band News) e Ricardo Kotscho (UOL). Sem citar Malu Gaspar, Azevedo bateu forte para desqualificar o enredo que causa espanto até entre os mais experientes. Assim como Kotscho, ele atribui o desfecho da votação à miséria da articulação política do governo e de Lula.
Há outras variáveis no meio da bagaceira. O projeto de reeleição de Alcolumbre à presidência do Senado no ano que vem, por exemplo, é apenas uma. A divisão interna no STF também teria ajudado a detonar Jorge Messias. Tem de tudo um pouco.
Nesse jogo de cena, entre realidade, especulações, má-fé e interesses espúrios, nada será esclarecido por completo. Como diria o senador Renan Calheiros, talvez a imprensa tenha reproduzido, em boa medida, um efeito lisérgico decorrente de tantos “fatos”.
