Gostei da reação do senador Renan Calheiros à acusação de que ele e Renan Filho teriam traído o presidente Lula na votação que rejeitou Jorge Messias para ministro do STF. Em texto anterior, escrevi sobre reportagens em O Globo e na Folha de S. Paulo que informam algo surpreendente: pai e filho teriam dado votos contrários à indicação do advogado-geral da União. A suposta facada pelas costas em Lula fez barulho.
E isso faz algum sentido? A história irritou o veterano senador, mas ele não perdeu o bom humor – a julgar pelos termos da negativa. Ex-presidente do Senado, Calheiros recorreu a uma ironia “viajante”, se é que me entendem, para repudiar o que chamou de “ilações”. Como informa a jornalista Vanessa Alencar aqui no CM, ele escreveu:
“São improcedentes as ilações sobre o MDB e mentirosas as especulações sobre o meu voto, dos senadores Renan Filho e Eduardo Braga. Trabalhamos e votamos em Jorge Messias. Derrotas devem ensinar e não gerar efeitos lisérgicos vindos do cavalo de Tróia dentro do governo”. Juntou psicodelia e mitologia grega numa só tacada.
De fato, por mais que se busque alguma explicação lógica, não faz sentido nenhum a versão contada nos jornalões. Todos os fatores na relação dos senadores com o presidente Lula desmentem essa hipótese especulada na imprensa. Nesse caso, sim, a variável psicodélica levantada pelo senador pode elucidar a origem da narrativa.
Sobre Troia, Calheiros parece sugerir que trapaças e trapalhadas de gente do próprio governo levaram à derrota acachapante. Os articuladores governistas no Congresso têm muito a explicar, mas isso não vai acontecer. José Guimarães, ministro responsável pela articulação palaciana com os demais poderes, é um dos muitos culpados.
Mas o desastre, olhando aqui de longe, deve ser debitado sobretudo na conta de Randolfe Rodrigues e Jaques Wagner. São os líderes do governo no Congresso. A dupla garantiu a Lula que o indicado teria os votos necessários. Eles já haviam atuado de forma alucinada quando o governo perdeu para arruaceiros o comando da CPI do INSS. Difícil.
Para não “reagir com o fígado”, o presidente pode tomar decisão na próxima semana sobre um novo nome para o Supremo. Deve se ligar para corrigir os rumos de sua articulação política. Caso contrário, corre o risco de ficar exposto a governistas aloprados que agem sob “efeitos lisérgicos”. Penso que Renan Calheiros tem razão.
Como escreve José Simão há 40 anos na Folha, vou ali pingar o colírio alucinógeno.