Quando viaja pelo país, o presidente Lula sempre concede entrevista exclusiva a veículos regionais de imprensa. É uma forma de, ao menos em tese, falar mais de perto com um público específico daquele pedaço do Brasil. E assim o petista produz notícia ao fazer declarações e anúncios numa rádio de Manaus, em um portal de Fortaleza ou numa TV de Cuiabá. Se isso rende algo de positivo ao governo, não faço ideia.

Quem não se comunica se trumbica? Melhor então dar o recado para o maior número possível de canais de informação. Sobretudo a partir de 2018, a comunicação como arma da política ganhou um novo status. O arrastão do bolsonarismo pareceu devastar o sistema da chamada mídia convencional. Tudo está sob domínio das redes sociais.

Esse veredito pode até ser uma realidade quando se pensa no horário eleitoral obrigatório no rádio e na TV. Naquele 2018, Geraldo Alckmin teve um latifúndio de tempo de propaganda, mas saiu da eleição com 4,7% dos votos válidos, em quarto lugar no primeiro turno. Foi o vexame que selou o destino do até então gigante PSDB.

Desprezar a força dos meios tradicionais é uma tolice temerária. Ao menos por enquanto. Por isso, não apenas Lula e a esquerda, mas também Flávio Bolsonaro e a extrema direita – todos recorrem aos jornalões e às emissoras de TV que estão aí há décadas. Programas antigos e medalhões do jornalismo seguem relevantes no debate político.

Mas tudo isso era para falar de Lula e os veículos que se autodefinem como “imprensa do campo progressista”. No intervalo de uma semana, Lula deu entrevistas a jornalistas que atuam em quatro desses meios. Primeiro, ele falou para o ICL Notícias. Depois, se encontrou com DCM, Revista Fórum e Brasil 247. O tom foi de camaradagem.

Não que os jornalistas não tenham feito perguntas difíceis, mas o clima geral foi de uma aliança. Esse segmento da nossa imprensa já reclamou bastante de Lula por ele dar mais atenção à “mídia golpista” do que à turma “independente” que atua pela esquerda.

Pelo ICL, Leandro Demori e Eduardo Moreira chegaram a dar “sugestões” ao presidente da República. A mais ousada foi a de banir todas as empresas de apostas virtuais, as chamadas bets. Lula reagiu com bom humor, e deu a entender que é favorável à ideia.

Leonardo Attuch, Kiko Nogueira e Renato Rovai fizeram a entrevista juntos pelos outros três veículos citados acima. Diretor do Brasil 247, Attuch começou uma pergunta a partir de uma premissa de plena adesão ao entrevistado, chamado por ele de “Pelé da política”.

A parceria com o presidente depõe contra os entrevistados e tira força da entrevista. Isso não é exclusivo da esquerda. Falar com imprensa “amiga” é o sonho de poderosos, não importa o sinal ideológico. É assim de Trump a Lula, da Fox News ao DCM.