Ciro Gomes foi candidato a presidente nas eleições de 1998, 2002, 2018 e 2022. A cada disputa, os votos foram diminuindo. Em nenhuma ocasião chegou perto de um segundo turno – ao contrário de Marina Silva em 2010 e 2014. Após rodar por meio mundo de partidos, o ex-ministro de Itamar Franco e de Lula voltou no ano passado ao quase extinto ninho tucano. Foi pelo PSDB que ele se elegeu governador do Ceará em 1990.

Nesta semana, uma surpresa: o nome do velho neotucano volta a ser cogitado para a corrida pelo Palácio do Planalto. Até ontem, ninguém falava em tal possibilidade, vista praticamente como um delírio destinado a digressões nas páginas da imprensa. Pois essa ideia foi relançada pela direção nacional do PSDB. O homem vai pensar.

Ciro recebeu do deputado federal Aécio Neves, presidente do PSDB, o convite formal para ser candidato. A resposta: “Minha angústia com o Brasil não me permite descartar pura e simplesmente [a candidatura à Presidência], e o meu respeito e os meus deveres com o Ceará também não me permitem aceitar prontamente o desafio”.

As palavras do ex-governador fazem uma homenagem involuntária à fama do tucanato – indecisão que sobe no muro com enrolação e trololó. Sem dúvida, é um desafio que tem tudo, tudo mesmo, para repetir o fiasco das votações de candidato nanico das tentativas anteriores. Mas como tudo é possível na vida, e em política também, quem sabe?

A refiliação de Ciro ao PSDB faz parte de um movimento maior da legenda, na tentativa de recuperar a relevância que teve durante três décadas. Embora houvesse – pelo histórico do personagem – especulação sobre uma candidatura presidencial, até agora o alvo mesmo tem sido a disputa pelo governo do Ceará. É mais realista.

Nesta quarta-feira 15 de abril, assisti a uma entrevista ao vivo do deputado Aécio Neves na Record News. Ele gastou um bom tempo na defesa de seu virtual candidato contra “o Brasil dos extremos Lula e Bolsonaro”. O exótico é que, nas negociações cearenses, Ciro e seu partido costuram aliança com o bolsonarismo e a ultradireita troglodita.

É nesse projeto de quase ressurreição do grande PSDB que entra o ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas. Com a filiação de JHC e outros acordos pelo país, a legenda tenta emplacar candidaturas competitivas em ao menos sete estados. Parece pouco, mas, diante da catástrofe que se abateu sobre a sigla, é um recomeço considerável.

Voltando a Ciro Gomes. Lembro que em 2018, ano da eleição de Jair Bolsonaro, parte da esquerda defendia o voto no ex-governador cearense. Mesmo eleitores de Lula nas disputas anteriores afirmavam que a hora era de renovação para além do petismo. Não deu. Como se sabe, Fernando Haddad foi ao segundo turno – e foi derrotado.

Ao fim da janela partidária, os tucanos comemoram o crescimento da bancada na Câmara Federal. As projeções para as urnas em 2026 sinalizam que essa tendência pode se confirmar. Um PSDB forte, penso eu, faz bem à política brasileira. Quanto a Ciro Gomes na briga pela Presidência, aí são outros quinhentos. Soa mesmo como delírio.