Mais de três anos após a tragédia náutica que abalou Alagoas, o Fórum de Marechal Deodoro sedia nesta quarta-feira (15) a audiência de instrução do caso que vitimou funcionários e o proprietário do tradicional Bar do Joel.
O episódio, ocorrido em fevereiro de 2023 na Lagoa Mundaú, deixou marcas que transcendem o tempo: enquanto José Cícero da Silva e Benedito dos Santos perderam a vida, o sobrevivente Joel Juvêncio Albino carrega as sequelas físicas e psicológicas de uma colisão que, segundo as vítimas, poderia ter sido evitada.
O momento é visto como um divisor de águas para um processo marcado pelo silêncio e pela longa espera das famílias por uma resposta institucional.
O centro do debate jurídico nesta audiência reside na classificação do crime. Embora o Ministério Público tenha oferecido denúncia por homicídio culposo, quando não há intenção de matar, a assistência de acusação, agora representada pelos advogados Joanísio Omena e Kyvia Maciel, sustenta a tese de dolo eventual.
O argumento é que a velocidade empregada e a condução perigosa da moto aquática demonstram que o condutor, um policial treinado e conhecedor dos riscos e das leis, assumiu conscientemente a possibilidade de produzir o resultado fatal.
Para a defesa das vítimas, as circunstâncias do local e a visibilidade da época descartam a ideia de fatalidade inevitável, apontando para uma conduta de risco extremo e desnecessário.
À época, o militar que conduzia o jet ski chegou a declarar que "ninguém sai de casa para causar um acidente", mas a reprodução simulada feita pela Marinha e os relatos dos sobreviventes alimentam o pedido de desclassificação do crime para homicídio e tentativa de homicídio dolosos.
Joel Albino, que além de vítima é a principal testemunha ocular, reforça que a embarcação era visível e que o impacto foi fruto de uma imprudência incompatível com a segurança da navegação.
Mais do que um procedimento de rotina, o ato processual de hoje carrega a expectativa de uma comunidade inteira que busca ver a gravidade da tragédia refletida em uma sentença que faça jus às vidas interrompidas nas águas da Mundaú.
