No meio do programa que debate os últimos acontecimentos da política, um dos jornalistas se mexe apressado, levanta de sua cadeira e avisa que precisa sair correndo. Motivo: no celular, alguém está passando informações naquele momento sobre o assunto que está em pauta. São dez da manhã. Ou três da tarde. Ou começo da noite. “Pessoal, é urgente, estou recebendo recado aqui da minha fonte. Segura, volto já”.

O âncora do programa ressalta a relevância do que acaba de acontecer. Elogia o colega que deixa os estúdios para capturar mais uma bomba – e que certamente pode mudar os rumos do país. Ao menos é o que parece, dado o labafero testemunhado ao vivo pela audiência. A discussão segue com os demais jornalistas e convidados.

E o que era, afinal de contas? O que de tão grave estava no celular do profissional que saiu desembestado do estúdio? Ninguém sabe. O programa esgota aquele assunto específico, entra em outro tema, depois outro, até o encerramento da mesa redonda. O jornalista que saiu não reaparece, ninguém explica nada. E segue o baile.

Eu já testemunhei esse tipo de teatro algumas vezes. Situações semelhantes ocorrem em diferentes veículos. UOL, Globo News, Jovem Pan, CNN, ICL, todos têm “craques” no jornalismo que estão sempre com a última novidade para ontem. São dezenas de repórteres e colunistas prontos para as revelações “em cima da hora”.

Eu já acho uma desgraça assistir a entrevistas nas quais o jornalista larga a pergunta e, enquanto o entrevistado responde, ele baixa a cabeça e passa a interagir com o celular. Além de grosseira, a performance é completamente idiota. E aquela urgência aparente tem todo o jeitão de farsa. Mas essa praga tomou conta da imprensa brasileira.

Décadas atrás, aquele compositor baiano nos dizia: “Quem lê tanta notícia?”. Sim, de tanto aparecer em workshop sobre comunicação de massa, a pergunta virou clichê. Mas, nesse caso, está cada vez mais na ordem do dia. O alarmante é que os protagonistas desse jornalismo do agora ou nunca são figuras com longa estrada.

E isso somente piora as coisas. Porque mostra que o frenesi, a histeria, o atropelo, enfim, vergaram até os experientes. Outra explicação é, reitero, a encenação – e isso piora tudo um pouco mais. Porque levanta a forte suspeita de que o jornalista está vendendo um peixe de ficção. Ser acionado por uma “fonte secreta” é sinal de prestígio.

Nesses programas, além dos convidados, há pelo menos quatro ou cinco jornalistas conversando potoca, durante duas, três horas, ao vivo. Se cada um deles está com várias fontes ao mesmo tempo no celular, e todos com uma nova notícia – “exclusiva” –, Jesus! De fato, o mundo pode até acabar agora mesmo. Não faz sentido.

Não é a correria que garante a qualidade da informação. Esse jogo de cena, que tomou conta da imprensa online 24 horas, joga todos os canais e marcas na mesma geleia geral. Sem identidade própria, um corre atrás do outro, reproduzindo os mesmos métodos, os mesmos cacoetes, a mesma falácia. A lógica das redes sequestrou tudo.