A esta altura das traquinagens eleitorais, como será que a última revolução de nosso tempo tem sido utilizada na pré-campanha? Refiro-me naturalmente à inteligência artificial. Porque tudo o que existe, e tudo o que ainda existirá um dia, neste admirável mundo velho, já não sobrevive, nem sobreviverá, sem recorrer à IA. Não é assim porque decidimos, mas porque se trata de inflexão existencial de alcance inédito e inevitável.

Na medicina de ponta, na corrida espacial, na engenharia de trânsito, no esporte, no cinema e na publicidade, ninguém trabalha e nada se realiza que não seja por meio da IA. A construção civil, o turismo, a investigação policial, as marmotas da gastronomia, a procura por desaparecidos e a preservação da onça-pintada bebem na IA.

Como se nota, os limites para aplicação de IA foram todos triturados num lapso de tempo. O que está a caminho nos reserva novidades de consequências imprevisíveis. O que hoje está na praça, porém, já mexe com nossas vidas de um modo como jamais aconteceu. A dita-cuja interfere na rotina de todos, ainda que isso nem seja percebido.

Na imprensa, na produção universitária e no universo da literatura, recorrer à entidade que tudo sabe e tudo resolve é motivo de controvérsia. Nas últimas semanas, uma colunista da Folha não apenas admitiu que a IA é a verdadeira autora de seus textos, como defendeu que não há nada de errado com isso. E o jornal concorda com ela.

Se bem entendo o que se passa, a ferramenta tomou conta das redações. Legendas, títulos e correção gramatical agora estão sob o comando da IA. E isso é apenas uma parte do que acontece. Não sei se há repórteres que deleguem o texto para o redator sem rosto. Os apocalípticos decretam o fim até de editores como eu fui um dia.

Primata da era pré-analógica, meu contato com o monstro se dá à minha revelia. Porque agora, quando fazemos uma pesquisa no Google, o resultado também aparece por meio da IA. Fora disso, mais nada. Pedir para um mecanismo digital escrever um texto é uma aberração em escala planetária. Imagine isso no âmbito da criação literária.

O tema é vasto. Com essas digressões, mal chegamos a triscar num fiapo de tudo o que está em jogo. Mas vamos fechar o debate, por agora, porque comecei falando da revolução tecnológica nas disputas eleitorais como a que teremos este ano.

Suponho que, com a IA, o talento dos poetas do marketing político muda de patamar – não sei se para cima ou para baixo. O mais delicado é a avenida livre para se produzir verdades falsificadas. Quando a corrida esquentar, veremos a dimensão do fenômeno.