A manchete atravessa a imprensa brasileira. Kassio Nunes Marques é mais um ministro do STF flagrado em avião particular de propriedade do liquidado banco Master. Dessa vez, uma curiosidade vincula o episódio à capital alagoana. O magistrado e sua senhora viajaram a Maceió para a festa de aniversário de uma advogada de Daniel Vorcaro. A aniversariante, casada com um desembargador federal, bancou tudo.
Reportagem da Folha revela que o ministro também usou várias vezes uma aeronave de um advogado do ex-governador do Rio Cláudio Castro. O magistrado integra o Tribunal Superior Eleitoral, que há poucos dias tornou Castro inelegível. O réu teve apenas dois votos favoráveis, um de André Mendonça, e o outro, de Nunes Marques.
Agora já são três ministros do Supremo expostos por viagens de graça em jatinhos particulares cujos donos têm casos em andamento nos tribunais superiores. Dias Toffoli e Alexandre de Moraes também voaram nas asas do Master. Sob o manto da suspeita, a pressão pra cima do STF aumenta a cada dia. A crise não para de crescer.
Além do evidente conflito de interesses – o que achincalha princípios éticos –, paira a desconfiança de algo muito mais grave: será que houve contrapartida dos togados na forma de decisões favoráveis a seus patrocinadores? Se a resposta for “sim”, resta configurado o crime de corrupção passiva. O feirão de sentenças corre solto no país.
É evidente que a concessão de mimos à magistratura nacional é uma tradição milenar. Em 2017, uma tragédia expôs o caso do também ministro do STF Teori Zavascki. Ele morreu num acidente aéreo. Estava a bordo de um jatinho particular que pertencia ao dono de um hotel de superluxo. O empresário também morreu no acidente.
De volta aos dias atuais, descobriu-se recentemente que o deputado Nikolas Ferreira planou pelos céus do Brasil num avião do onipresente Vorcaro. Já o Estadão acaba de publicar que o senador Flávio Bolsonaro, além de voos domésticos, foi bater na Flórida (Estados Unidos) num avião que pertence a empresário amigo.
Sejamos claros, sem meias palavras ou explicações fantasiosas. Política e jatinho particular formam uma dupla infernal no Brasil desde que Santos Dummont inventou a máquina voadora. Se fosse possível uma devassa nos registros de voos, de algumas décadas para cá, suspeito que poucos detentores de mandato escapariam.
Empresários dão carona ou emprestam suas aeronaves a políticos todo santo dia. O troca-troca de favores faz parte da rotina nos Três Poderes da República. Em tempos de campanha eleitoral, como agora, as nuvens ficam até engarrafadas.
Caso haja interesse em esclarecer como isso se dá em Alagoas, uma investigação sobre os registros no aeroporto Zumbi dos Palmares seria devastadora. Esta é uma das mais resistentes mazelas brasileiras. Porque é obra dos donos do dinheiro e do poder.
