Nos momentos de crise política capaz de provocar realinhamento de placas tectônicas entre os poderes, a imprensa acaba sendo protagonista. Quando menos, deixa de apenas reportar os fatos e vira alvo de escrutínio generalizado. Estão aí os casos do INSS e do Master para reafirmar essa tradição no jornalismo brasileiro. O apoio dissimulado a esta ou àquela ideia, se percebido como tal, provoca estragos perigosos.

A comparação é bem exagerada, mas vamos lá. O Grupo Globo faz um segundo pedido de desculpas ao país por erro em sua postura jornalística. Em 2014, nos 50 anos do golpe militar de 64, a direção da Rede Globo reconheceu como um erro histórico o apoio que deu à ditadura. Demorou cinco décadas, mas o ato deve ser celebrado.

Mais de uma década após esse pedido de desculpas, o Grupo Globo repete o gesto, agora especificamente na Globonews. Naqueles debates entre os colunistas da TV, apareceu no telão “uma arte” sobre a rede de conexões de Daniel Vorcaro. Embora com nomes de outros partidos, o destaque era uma foto do presidente Lula e a estrela do PT. 

Na grande rede, a repercussão foi imediata e explosiva. A ilustração da Globonews ganhou logo o nome de PowerPoint. É uma referência ao espetáculo de Deltan Dallagnol no auge da Lava Jato. A Globo não teve o menor constrangimento de recorrer ao mecanismo delinquente do ex-procurador. O que é que há?

Desde que o escândalo do Master veio à tona, a imprensa apareceu como personagem nas reportagens, colunas e editoriais. O vazamento em série de informações sigilosas das investigações é o combustível para um estado de tensão permanente. A traficância entre autoridades e jornalistas atende a interesses para além da verdade.

O PowerPoint da Globonews foi um desastre para a imagem da emissora. Tanto é assim que houve então o pedido de desculpas. Mas foi confuso. Andrea Sadi leu um texto tortuoso, que não deixou claro o tamanho do problema. A jornalista parecia nervosa, atropelando as palavras. A “arte” fora de hora sugere uma direção sob suspeita.

Tirante nossa queda para teorias da conspiração, o PowerPoint global acabou ajudando ao PT e à turma da esquerda. A maior rede do país acusou o golpe – ainda que seu pedido de desculpas tenha sido meio obscuro. A crise é fora de série.

Para fechar, uma constatação a mais quanto à imprensa. Folha, Estadão e O Globo tocam uma cobertura agressiva sobre os escândalos do momento. O portal Metrópoles cava espaço com revelações de impacto. Um protagonismo sempre controverso.