Dois senhores conversam na fila do caixa do supermercado. Após algumas reclamações sobre violência e “falta de vergonha desses políticos”, um dos indignados se sai com esta: “É, a situação do Brasil tá complicada. A esperança é o Galego, mas agora parece que tá difícil”. O outro responde: “Rapaz, quem sabe se ainda não vem. Vamos ver...”. A princípio, pensei que Flávio Bolsonaro seria o “Galego” salvador da pátria.
Mas não. Logo em seguida, percebi que a referência era a Donald Trump. Estava eu diante de dois legítimos cidadãos de bem, convictos de que a solução para todos os nossos problemas seria uma ação do presidente dos Estados Unidos contra o governo brasileiro. Vejam só o grau de demência a que chegamos. Não é pouco estrago.
Como é que brasileiros torcem para uma intervenção estrangeira contra sua própria casa? Como e por que essas pessoas adotaram tal ponto de vista? Sim, as coisas ficaram mesmo de cabeça pra baixo. É nisso que dá o fanatismo por uma liderança política e seu conjunto de ideias imprestáveis. O terraplanismo triunfou.
Acreditar que a ação violenta de agente externo resolve nossos problemas é atestado de falência mental. Aquela dupla é a ilustração de como qualquer porcaria política é capaz de cooptar multidões. Porcarias que podem acabar em convulsão. Já sabia de tudo isso, claro, mas conferir a materialidade da coisa não deixa de provocar espanto.
O messianismo e a ignorância caminham juntos. A marmota ganha tração quando as ruas abraçam os desvarios de uma ala da política. É o que temos. Tarcísio de Freitas, Romeu Zema e a família Bolsonaro não vestiram o boné do MAGA?
Vamos lembrar que, nas manifestações golpistas pelo país, a bandeira dos Estados Unidos foi aberta orgulhosamente nas avenidas. A tradicional família brasileira implora para lamber as botas do Galego da América do Norte. Bom mesmo é ser colônia!
Vamos reconhecer que, sim, desqualificados da política – incluindo alagoanos, é lógico – cumpriram bem a missão dada pelo “mito”. A extrema direita conseguiu revigorar como nunca o chamado viralatismo. E esse dado é apenas o aspecto circense.
Assim fica difícil tentar o diálogo com “aquele que pensa diferente de nós”. O problema é o sentido elástico dessa diferença. Em nome da tolerância, você oferece a cabeça à guilhotina? Não dá. O bolsonarismo raiz, está demonstrado, não tem cura.
