Dias atrás escrevi aqui um texto sobre o projeto que prevê o fim da escala 6x1. Defendo a ideia, assim como a adoção da tarifa zero no transporte coletivo. As duas iniciativas se somariam ao conjunto de programas sociais criados no país nos últimos anos. Um leitor escreveu para discordar: “O blogueiro não aponta de onde vai sair o dinheiro para tantos benefícios”, argumentou. E emendou com um desabafo: “O pagador de impostos não está aguentando mais”. Fiquei pensando na origem desse diagnóstico dramático.
Quando você diz que não aguenta mais determinada situação, podemos entender que a parada está mesmo de lascar. É caso até de vida ou morte. Para chegar a tal veredito, você certamente passou por experiências que atestam seu drama particular. O que terá acontecido com nosso “pagador de impostos” à beira do colapso?
Em palanques e entrevistas, em comícios para o povão e em palestras para convescotes de banqueiros, Tarcísio de Freitas repete o mantra: “Ninguém aguenta mais quatro anos de PT”. Na mesma toada, Valdemar Costa Neto, um patriota cansado de ver tanta coisa errada, repete o governador de São Paulo. Flávio Bolsonaro repete Valdemar.
“O povo não aguenta mais tanta insegurança e o bandido solto por aí”. De quem é esse pensamento? Podem procurar no velho Google: é o deputado federal Alfredo Gaspar em mais uma peça publicitária disfarçada de “indignação cidadã”. Afinal, sua missão de vida, segundo ele diz, é o combate à corrupção e ao crime organizado.
O discurso. A retórica. As palavras. É desse universo, explosivo e fascinante, que sai toda essa indignação de mostruário. Tudo começa com uma frase tipo slogan de campanha, recebe a adesão de uns e outros e, quando a gente se dá conta, eis um novo pensamento dominante. A etapa final se dá quando a ideia conquista as massas.
Um dos problemas com esse fenômeno no campo da linguagem é a reiteração do clichê. Quando todo mundo passa a reproduzir a mesma visão de mundo, a autenticidade individual já era. Passamos a defender algo com uma convicção que soa apenas teatral. O que seria um ponto de vista sólido, assim, não passa de inútil palavrório.
É mais ou menos por aí o que se passa agora no país. “Ninguém aguenta mais” isso, aquilo, o tudo e o nada. Calma lá. Esse é o padrão típico de grupos que, arrastados pela pororoca da multidão sem rosto, terceirizam o direito de pensar com a própria cachola.
Quando uma ideia oca se impõe à maioria, triunfam os malandros da política.