Quando cheguei para trabalhar na TV Gazeta, em 1991, uma das primeiras pessoas que conheci foi André Feijó, que exercia as funções de cinegrafista e editor de imagem. Em pouco tempo, fizemos uma dupla que aprontava na edição do Bom Dia Alagoas. Ele tinha fama de mau humorado. Na verdade, era o que se costuma chamar de personalidade forte. Ao longo dos anos, pude constatar que atuava ao lado de um craque no jornalismo.

Naqueles meus primeiros tempos de TV Gazeta, a emissora não tinha equipe de externa logo cedo pela cidade, como existe hoje em dia. Por isso, não foram poucas as vezes em que Feijó e eu saímos pra rua em busca da notícia que acabara de acontecer, ainda antes das seis da manhã. Correndo contra o relógio, era uma maratona sob risco e pressão.

Podia ser um acidente grave ou uma operação policial. Com carro próprio, tínhamos de ser rápidos – afinal havia um telejornal para organizar, com reportagens a ser exibidas e entrevistas ao vivo. Zélia Cavalcanti e Voney Malta formavam o casal de apresentadores. Foram jornadas de aprendizado que começavam em plena madrugada.

Ao longo dessas últimas três décadas, várias das imagens marcantes da conturbada história de Alagoas que apareceram nos telejornais da Globo foram capturadas pelo olhar de André Feijó. Quando a rede enviava repórter para cobrir algum tema no estado, Feijó era candidato natural a ser o parceiro como repórter cinematográfico.

Ousado e corajoso, Feijó encarava qualquer perigo para garantir a imagem, para não perder o flagrante no instante em que o fato acontecia. O talento e a coragem resultaram em agressão contra ele – mais de uma vez. Em mais de uma ocasião, autoridades partiram pra cima do jornalista na tentativa de impedir que ele registrasse alguma cena.

Mas o efeito das intimidações era o contrário do que esperavam os alvos das reportagens. Feijó ficava ainda mais empolgado nessas situações de ameaça – e ele foi ameaçado por vereador, deputado, delegado e outros tipos que se acham intocáveis. Quanto mais adrenalina, mais disposição para cair em campo e encarar as feras. 

Dos muitos momentos em que brilhou na sua carreira, cito o caso PC Farias, a crise de 1997 que acabou na renúncia do governador Divaldo Suruagy, os crimes da gang fardada e a chamada chacina da Gruta. E isso é apenas uma mostra mínima dos fortes acontecimentos que chegaram ao público pelas lentes desse gigante no ramo.

Feijó fez parte de um time talentoso de repórteres cinematográficos. Com ele, estavam Cícero Pires, Falcon Barros, José Maria Chagas, Milton Cavalcante, Marcos Soares e outros. Atrás das câmeras, esses profissionais são tão importantes quanto os galãs que aparecem diante do telespectador mais produzidos do que modelos de passarela.

Havia, como falei, coragem e desassombro para cumprir suas tarefas. Mas, ao lado dessas qualidades, o principal era o talento descomunal de um cinegrafista para quem nenhuma imagem era banal. Feijó era um esteta sob o figurino de um operário da imprensa, com um olhar atento a tudo – das mazelas às maravilhas do dia a dia.

Qualquer antologia sobre capítulos marcantes do jornalismo em AL deve contemplar a trajetória de André Feijó. Sua contribuição é valiosa para quem busca no trabalho a combinação de ética, vigor e domínio técnico. Neste 15 de março, perdemos um mestre.