Pelo segundo ano consecutivo, o clima é de Copa do Mundo. É o que diz o noticiário sobre o prêmio mais badalado do cinema universal. Por todo o Brasil, cidades armaram eventos festivos para acompanhar a cerimônia de premiação do Oscar, neste domingão 15 de março. Salas de projeção, bares, praças, parques e jardins vão receber as multidões, na torcida por O Agente Secreto, o filme dirigido por Kleber Mendonça Filho.

O diretor pernambucano virou queridinho da esquerda a partir de seu segundo longa de ficção, Aquarius, lançado em 2016. Três anos antes, ele havia sido consagrado pela crítica com o falso suspense O Som ao Redor. A aliança com o campo progressista ganhou mais liga com Bacurau, lançado em 2019. Agora, no galope de O Agente, Mendonça Filho reafirma (e revigora) sua interação com as vozes “antifascistas”.

Em 2024, o Brasil indicou outra obra do diretor para disputar o Oscar, mas o documentário Retratos Fantasmas não convenceu a Academia e não foi selecionado entre os finalistas. Aquela escolha brasileira, de fato, não faz sentido – e atesta o prestígio do artista no topo do poder. Tentar um Oscar de melhor filme com um documentário é apostar na derrota. Uma escolha sem qualquer explicação lógica.

Além disso, o filme sobre os cinemas de bairro que fecharam no Recife é uma chatice à altura do narcisismo do diretor. Mas voltemos ao centro. O que há em comum nos filmes de Mendonça Filho – e que atrai esse engajamento político – é um tremendo problema. Para citar um ponto, o maniqueísmo é onipresente. E não apenas na criação atual.

Mocinhos e bandidos não têm qualquer nuance. No embate entre o bem e o mal, uma coleção de clichês, ideias prontas e sentimentalismo vai deixando no caminho um rastro de constrangimento. É sério o “diálogo” entre um pai e um filho sobre “a mamãe que morreu e não volta mais”? Sem dúvida, uma das piores cenas do filme.

Ao contrário do que li na grande imprensa, este não é o melhor trabalho de Kleber Mendonça. Seu grande filme é o citado O Som ao Redor, ou seja, a estreia do diretor na ficção. Após reconhecimento internacional, o cineasta brasileiro é praticamente selo de qualidade. Sucesso e fama, no entanto, não garantem relevância a qualquer tolice.

O Agente Secreto concorre em quatro categorias: filme, filme internacional, direção de elenco e ator. Wagner Moura, personagem principal, é a grande aposta – ainda mais depois de Fernanda Torres disputar a estatueta no ano passado. O país é convocado por todos os veículos. Da Globo à CNN, passando por UOL, é Copa do Mundo mesmo.

Há quase dois anos (28 de abril de 2024) escrevi neste blog que o cinema brasileiro vivia um de seus melhores momentos. A onda segue em alta – e, vejam bem, Kleber Mendonça é só um detalhe nessa complexa e fascinante engrenagem. Uma premiação, claro, dá visibilidade e chama atenção lá fora. Pegue sua bandeira e caia na torcida.