O Banco Central tem autonomia administrativa e operacional. Toca seu dia a dia sem a obrigação de dar satisfações a soldados do governo de turno. Presidente e diretores têm mandato de quatro anos e não podem ser demitidos nem pelo presidente da República. E o BC simplesmente define – só, somente só e sozinho – a taxa básica de juros. O percentual decreta os rumos da economia do país. Em tese, tem de ser assim mesmo.
O modelo no Brasil é recente. Começou em 2021 no governo de Jair Bolsonaro, que nomeou o primeiro presidente do BC com esse grau inédito de liberdade para atuar. Hoje estamos com o segundo presidente, este nomeado por Lula. Os dois chefes do Planalto não escolheram inimigos para o posto – mas não há espaço para interferência.
Ainda assim, há uma forte pressão de vários setores para dar mais blindagem ao BC – com uma espécie de plena independência. O mercado e a direita tremulam essa bandeira, rechaçada com mesma ênfase pela esquerda. Ninguém por aí imaginaria um por cento do que representa o escândalo em andamento – o caso banco Master.
Pois os fatos investigados revelam uma realidade que põe em xeque a engrenagem do recente modelo de gestão no BC. Ora bolas, não apenas o governo, mas o próprio Estado brasileiro, não manda um pingo no autônomo BC. Mas um agente financeiro do universo privado pintava e bordava na instituição da República. O triunfo da barbárie.
Um integrante da diretoria do BC tem muito poder. Como um magistrado pouco zeloso no Judiciário, usa e abusa da caneta monocrática. Foi com esse cacife que um ex-diretor na gestão Roberto Campos Neto atuou como despachante de Daniel Vorcaro.
Outro servidor de área estratégica do BC atualizava a quadrilha sobre ações internas, informações privilegiadas para o banqueiro manter as coisas sob controle. O estrago na imagem do BC não tem como ser subestimado. O modelo precisa de ajuste.
Veja só, quando pensamos no Banco Central, pensamos em algo vinculado à ideia de austeridade, um ambiente do setor público inexpugnável, hostil ao menor ensaio de corrupção. Mas a alma austera do BC fica apenas no campo da digressão.
Daniel Vorcaro, que eu lembre, é personagem único na história do país. O cara, parece, agia feito máfia. É o que fala a imprensa diante das descobertas até agora. O banqueiro arrombou portas blindadas, corrompeu meio mundo e comprou a autonomia do BC.










