Na corrida presidencial de quatro anos atrás, o Brasil foi apresentado a mais uma dessas figuras que transitam entre o folclórico e o trambique no mundo da política. Era o Padre Kelmon, um candidato laranja de Jair Bolsonaro que passou a campanha inteira batendo em Lula, num combinado que reafirma a tradição das disputas eleitorais no país. E agora, em 2026, haverá algum laranja a serviço do bolsonarismo, contra Lula?
Quem responde é o jornalista Bernardo Mello Franco, nas páginas de O Globo: “Em 2026, Flávio Bolsonaro deve contar com outro adversário de mentirinha. É Aldo Rebelo, ex-ministro dos governos Lula e Dilma”. Como já escrevi aqui, de fato, o comunista que virou a casaca na reta final de sua trajetória decidiu sucatear a própria biografia.
Em sua coluna publicada no último dia 11, o jornalista afirma que o alagoano “trocou a foice e o martelo pela motosserra, renegou o passado de esquerda e virou porta-voz de latifundiários, garimpeiros e desmatadores da Amazônia”. Segue o texto: “Para ser aceito no novo clube, passou a atacar o Supremo e defender anistia aos golpistas”.
O colunista diz ainda que “fora do páreo, Aldo parece cumprir tarefa como linha auxiliar do bolsonarismo”. Mello Franco cita como exemplo de adesão de Rebelo às pautas bolsonaristas sua proposta de aumentar o número de ministros do STF. A ideia é um clássico em todas as investidas autoritárias conhecidas no mundo.
Hoje filiado ao Democracia Cristã, é um tanto melancólico o papel desempenhado pelo ex-ministro e ex-presidente da Câmara dos Deputados. No comparativo com a batina de Padre Kelmon, Mello Franco fecha seu texto assim: “Aldo adotou outro figurino para o papel de candidato laranja. Tem circulado de paletó e chapéu-panamá”.
Rebelo está furioso. Em vídeo nas redes, ele ataca o jornalista e pede respeito. Mas o homem pisa na bola com “argumentos” do campo pessoal, precisamente como se dá nos piores embates da baixa política. Rebelo chega a exibir uma foto de uma entrevista que Mello Franco deu a Juca Kfouri como “prova” das más intenções do jornalista!
Entendo a fúria do nosso conterrâneo de Viçosa. O carimbo de “laranja” a esta altura da vida é de lascar. Mas não importa o que diga o comunista arrependido, suas escolhas nos últimos anos confirmam o diagnóstico que tanto o incomodou. O discurso de Rebelo presta serviço valioso a Flávio Bolsonaro. Parece mesmo coisa de candidatura laranja.
