Deu a lógica. A CPMI do INSS caminha para um fim à altura do circo armado desde agosto do ano passado, quando começaram os trabalhos. Criada para investigar um esquema bilionário de fraude contra aposentados e pensionistas, a comissão foi tragada pela politicagem. Há dois principais responsáveis para esse desfecho inexpressivo: o senador Carlos Viana, presidente, e o deputado Alfredo Gaspar, o boquirroto relator.
A dupla gastou boa parte das sessões tentando arrastar o atual governo para o escândalo e proteger o governo do ex-presidente Bolsonaro. Natural. Trata-se de duas figuras fanaticamente ligadas à extrema direita e ao estadista Jair Messias. Até a contagem de uma votação sobre quebra de sigilo foi fraudada miseravelmente. Ao vivo.
Uma informação revelada nos últimos dias serviu para desmoralizar o discurso de vestal de Carlos Viana. O senador tem de explicar por que enviou mais de 3 milhões de reais, via emendas parlamentares, para uma fundação da igreja Lagoinha, do pastor picareta André Valadão. Ele está enrolado no escândalo do banco Master.
Nesta quinta-feira, desperdicei algum tempo para acompanhar parte da sessão da CPMI. É de doer! Uma das inovações do relator é fazer discursos em pé diante dos demais parlamentares. Salvo engano, nunca houve presepada semelhante. Mas entende-se. Gaspar usa o espaço para fazer comício. O ano é de eleição.
Durante seu longo e enfadonho palavrório, nota-se claramente o desânimo de deputados e senadores – até daqueles que estão do mesmo lado do relator. É muita palavra de ordem, frases de efeito e slogan prontinho para ser usado em campanha. Isso sem falar nas ilações descabidas naquilo que deveria ser um trabalho sério e decente.
Pelo prazo legal, o relatório da CPMI tem de ser lido até o dia 28 deste mês. A cúpula do colegiado força a barra para prorrogar o espetáculo por mais 60 dias. O clima de resto de feira, no entanto, não sinaliza para isso. Se o teatro se arrasta há mais de seis meses, com resultados pífios, algumas semanas a mais vão ampliar o fracasso.
Não bastasse o uso político pela direção da CPMI, houve tentativa permanente de tomar depoimentos de pessoas apenas porque elas dariam audiência à sessão. É o caso de Leila Pereira, a presidente do Palmeiras. O STF garantiu a ela o direito de não comparecer – em decisão correta. Os parlamentares dão chilique contra a Supremo.
Impunidade no ar? Não, pelo contrário. Polícia Federal, Receita e outros órgãos de Estado fazem o trabalho que deve ser feito. Há prisões de envolvidos e devolução do dinheiro às vítimas do golpe. O êxito das investigações contrasta com a mediocridade do que foi visto ao longo desses meses no picadeiro da CPMI. Nenhuma surpresa.
Agora é aguardar para ver o relatório final de Alfredo Gaspar. Se sua prosódia combinar com a boçalidade e a demagogia de sua atuação como relator, vem aí um panfleto de alto nível. Mas tudo bem. Como PF e outras instituições fazem a coisa certa, a papelada gaspariana da CPMI pode ir para o lixo sem problema nenhum.
